quinta-feira, 4 de maio de 2023

21:25 - No comments

A revelação de Jesus Cristo em Gênesis 36: O Niilista Pré-Moderno


Gênesis vem desenvolvendo a história de Jacó até aqui, mas neste capítulo abre-se um parênteses para relatar a descendência de Esaú. Alguns paralelos são feitos indiretamente entre ambos. Jacó teve seu nome mudado para Israel (que falamos no comentário de Gênesis 32, tem haver com a missão do Messias de justificar e retificar, fazendo a ponte entre Deus e os homens), enquanto Esaú tem seu nome mudado para Edom (que significa “vermelho”, uma lembrança de quando Esaú trocou a benção de Deus por um prato de guisado vermelho (Gn 25:34). “Esta é a história da família de Esaú, que é Edom” (Gênesis 36:1). Tanto Jacó quanto Esaú têm 12 filhos.

Esaú não se importava com as verdades eternas de Deus. O seu “deus” era o próprio ventre. Esaú queria as bênçãos decorrentes da aliança, mas não tinha interesse no Deus da Aliança. Era um homem imediatista, entregue aos prazeres da carne, sem preocupação pelas promessas e pela glória futura, escravo dos seus olhos, ansioso por riquezas, escolheu suas mulheres sem considerar a vontade de Deus, estava disposto a tudo por poder e posses.


No verso 6, a profecia de Isaque se cumpriu sobre Esaú/Edom pela primeira vez (haverá outras): “Então Isaque, seu pai, disse: Sua habitação será longe dos lugares férteis da terra, longe do orvalho que cai do alto. Você viverá da sua espada e servirá o seu irmão; quando, porém, você se libertar, sacudirá do seu pescoço o jugo dele” Gênesis 27:39-40.


Esaú conhecia as profecias sobre a terra prometida, ele sabia que a descendência espiritual de Abraão herdaria aquela terra. Ele também sabia que não bastava ser descendente “fisicamente” de Abraão, haja vista que seu tio Ismael não pertencia à linhagem da promessa. Ao abandonar a terra prometida, Esaú está se desvinculando por completo do povo da aliança, e ao mesmo tempo reconhecendo implicitamente Jacó como o sucessor legítimo de seu pai Isaque. Esaú certamente sabia que se permanecesse seria servo de Jacó. Ele muda-se para Seir, longe das terras férteis de Canaã. Assim, os Edomitas, descendentes de Esaú, se desenvolveram como conquistadores militares que cresceram por meio da violência, saqueando outros povos. Cumprindo a profecia de Isaque.


Analisando a descendência de Esaú, percebe-se um afastamento progressivo de Deus. O nome de um dos filhos de Esaú é Reuel que significa amigo de Deus, se referindo ao Deus de Abraão e Isaque. Olhando os nomes subsequentes, percebemos um esquecimento do Deus da aliança e aparecimento de nomes em homenagem aos ídolos pagãos, como Baal-Hanã em homenagem a Baal. Ao ponto dos Edomitas se tornarem completos inimigos do povo de Deus.


Edom se tornou um povo forte e poderoso, militarmente temível. Na contramão da descendência de Jacó, pastores de ovelhas, que estavam prestes a se tornar escravos. Assim também aconteceu com a linhagem de Caim quando comparado com a linhagem de Sete, os filhos da promessa novamente parecem estar em desvantagem. Imagine os hebreus lendo sobre o poderio dos reis de Edom, enquanto eles foram feitos escravos no Egito; certamente foi necessário fé no caráter de Deus e na sua aliança.


A descendência da serpente (G.3.15) parecia prosperar, e a abençoada linhagem messiânica parecia não tão abençoada assim. A linhagem da serpente sempre agiu para combater e aniquilar a linhagem do Messias: 500 anos depois no caminho da terra prometida, os edomitas impedem Israel de passar para Canaã (Números 20). Saul precisou lutar contra os edomitas, Davi subjugou eles, tornando Edom uma nação vassala, mas eles novamente “sacudiram do pescoço o jugo deles”. Malaquias tem profecias contra Edom, boa parte do livro de Obadias são maldições contra Edom. Quando os filhos de Jacó foram atacados pela babilônia, os edomitas fecharam as estradas e entregaram os filhos de seu irmão para o cativeiro. Mas a maior tentativa de aniquilar a semente messiânica ainda estava por vir, e foi dada pelo rei Herodes (filho de um idumeu, da terra de Edom), quando era rei da Judéia, ele soube que o Rei dos Reis prometido nas escrituras judaicas havia nascido, e mandou matar todas as crianças abaixo de 2 anos em Belém.

Israel permaneceu, mas Edom já não existe mais. E aquela singela, pobre e humilde linhagem do Messias cresceu e se espalhou alcançando, pelo evangelho, todas as nações da terra, contra todas as probabilidades e conquistando, inclusive, o coração de muitos descendentes de Esaú.

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20:07 - No comments

A revelação de Jesus Cristo em Gênesis 35: O Deus da Casa de Deus

Jacó tinha um voto a cumprir (Gn 28.20-22). Deus ordena que ele suba para Betel e construa um altar. Seria natural que numa família tão grande, em algum momento os filhos mais velhos iriam querer sair e morar sozinhos, ou habitar no meio de algum dos povos vizinhos ou simplesmente não seguir o pai nas suas peregrinações. Mas os eventos que acontecem em torno dessa família simplesmente deixam todos da família sem qualquer outra opção. Deus estava atuando de modo natural e sobrenatural para formar uma grande nação por meio deles.

Eles precisavam fugir dos cananitas, seria perigoso demais continuar morando em Siquém. Jacó ordena a todos que abandonem os seus ídolos e imagens de escultura, eles precisavam se purificar para se apresentarem diante de Deus. Interessante notar que Jacó faria a mesma rota de seu avô Abraão (Gn 12.8).

Quando Jacó fugia de seu tio Labão, o Anjo do Senhor (que era Jesus, conforme explicado no comentário sobre Gênesis 32) falou a Jacó em sonho (Gn 31.11) e refere-se a si mesmo como o "Deus de Betel" (31.13). Betel significa “Casa de Deus”, e Jacó vai renomear o lugar para El BetEl (que significaria: O Deus da Casa de Deus). Jacó constrói o altar e o Deus Todo-Poderoso reafirma a mudança de nome de Jacó para Israel, confirmando assim que era Ele próprio que lutou com Jacó no vau do Jaboque. Mas é interessante observar que o Deus Todo Poderoso estava pessoalmente diante de Jacó: “A seguir, Deus elevou-se do lugar onde estivera falando com Jacó” (Gn 35:13). Uma vez que ninguém jamais viu a Deus Pai, trata-se de mais uma evidência de que era Jesus que estava falando com Jacó.(Êxodo 33:20, João 1:18, Juízes 6:22). Essa cena também lembra o momento da ascensão de Jesus (Lucas 24:50,51), Jesus também abençoou os discípulos, o Israel de Deus (Gálatas 6:16), e depois disso subiu aos céus.

Deus reafirma a promessa para Jacó: “De você procederão uma nação e uma comunidade de nações” (Gn 35:11). Deus não prometeu apenas uma nação (Israel), mas também uma comunidade de nações. Que comunidade é essa? A fé dos patriarcas se manteve encarcerada dentro do território de Israel até Jesus. Na sua ascensão Jesus ordena que o evangelho seja pregado “até aos confins da terra” (Atos 1:8). E olha só você, milênios depois e do outro lado do mundo, lendo sobre a história de Jacó. Tudo isso somente graças a Jesus Cristo.


Deus promete uma boa terra a esses descendentes. Também não seria possível que estivesse falando da terra de Canaã, pois ainda que essa fosse possuída por Israel, a profecia era de que essa comunidade de nações também descenderia a terra. Repare:

“A terra que dei a Abraão e a Isaque, dou a você; e também aos seus futuros descendentes darei esta terra" (Gênesis 35:12).

Obviamente estas promessas tinham um significado espiritual, Jacó tinha alguma noção disso, ainda que esta não fosse tão clara e definida como temos agora. O céu é a terra prometida para todos filiados em Jesus, que são portanto descendentes de Jacó.

Partiram de Betel e chegando em Efrata, deu à luz Raquel, e ela teve muita dificuldade no parto. Ela já estava morrendo, quando deu ao filho o nome de Benoni (que significa “filho da dor” ou “filho da aflição”). Mas o pai deu-lhe o nome de Benjamim (“Filho da Destra”)”. Assim morreu Raquel, e foi sepultada no caminho de Efrata; que é Belém.

Neste mesmo lugar, milênios depois iria nascer um descendente de Jacó que Isaías chama de “servo sofredor”, “aflito”, “homem de dores”. Diante do que Simão profetiza sobre Jesus para Maria (Lucas 2:35), Maria podia ter-lhe chamado Benoni. “Nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido.” (Isaías 53). Mas como Deus, seu Pai, o chamou? Benjamim, o filho da Destra. "O qual, havendo subido ao céu, reina à direita de Deus" (1 Pedro 3:22)

Essa história pré-profetiza, aquilo que ficaria explícito apenas com o profeta Miquéias (Mq 5:2) que Benoni: Benjamim, o Senhor Jesus, havia de nascer em Belém.


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sexta-feira, 22 de julho de 2022

11:33 - No comments

Charles Spurgeon: "você não é responsável além de suas possibilidades"

Um trecho do livro "Oração comunitária" de Charles Spurgeon:

“Você e eu não somos chamados para consertar o mundo e tampouco para deter o mar revolto do pecado humano. Não tentemos controlar o cetro divino: não nos cabe fazê-lo. É claro que você gostaria de endireitar as pessoas, tornar ortodoxos todos os pregadores. Contudo, meu irmão, a tarefa está além da sua capacidade. Preocupe-se com a retidão da sua vida, e esteja determinado a testemunhar de modo completo, honesto e obediente toda a verdade que você conhece. E permaneça nisso, porque você não é responsável além de suas possibilidades.” — Charles Spurgeon

sábado, 9 de julho de 2022

18:33 - No comments

A revelação de Jesus Cristo em Gênesis 34: Cavalo de Troia

Imagino os judeus liderados por Moisés, prestes a entrar novamente na Terra Prometida,  lendo o capítulo 34 de Gênesis. Deve ter soado para eles como um alerta do perigo que o relacionamento próximo com os cananeus representava para o povo da aliança.


Jacó estava em segurança na Terra Prometida, a situação parecia tão confortável que Jacó e seus filhos estreitaram o relacionamento com os habitantes de Siquém. Um certo dia Diná, a única filha de Jacó, foi fazer amizade com as cananéias. E Siquém, príncipe da cidade, vendo a jovem abusou sexualmente dela. A palavra hebraica usada no texto indica que ela foi “humilhada/afligida”, Diná não havia consentido na relação. 


Hamor, pai de Siquém, tentou negociar um casamento arranjado com a família de Jacó, que ficou furiosa ao saber dos acontecimentos. Hamor faz uma proposta para a casa de Jacó: “Meu filho Siquém apaixonou-se pela filha de vocês. Por favor, entreguem-na a ele para que seja sua mulher. Casem-se entre nós; dêem-nos suas filhas e tomem para si as nossas. Estabeleçam-se entre nós. A terra está aberta para vocês: Habitem-na, façam comércio nela e adquiram propriedades". Então Siquém disse ao pai e aos irmãos de Diná: "Concedam-me este favor, e eu lhes darei o que me pedirem.” (Gênesis 34:8-11)


Talvez para alguns pode parecer uma boa proposta, ou uma boa solução, mas o problema é que isso tornaria Siquemitas e Israelitas o mesmo povo. Quando viesse o Messias, como saberíamos que ele realmente é um descendente de Abraão? A semente messiânica estaria ameaçada pelos casamentos mistos com os povos da terra. Além do mais, sabemos que mais tarde a cidade de Siquém se tornaria um centro do culto de Baal, essa aliança certamente faria os israelitas se aproximarem da idolatria e abandonarem o culto ao Deus verdadeiro.


Os filhos de Jacó oferecem uma condição para unir os dois povos, os siquemitas precisavam se circuncidar. Assim, todos os homens de Siquém se circuncidaram. No terceiro dia, quando as dores da circuncisão estavam mais fortes, Simeão e Levi mataram todos os homens de Siquém. Simeão e Levi usaram um sinal da aliança de Deus (Gn 17:11-14) para fazer o mal. Eles esvaziaram seu significado apresentando-a como um mero ritual religioso e ainda a usaram como instrumento de vingança. A punição imposta a Siquém por Simeão e Levi foi completamente excessiva, mesmo sob a interpretação da Lei Mosaica que foi instituída posteriormente (Dt 22:28,29). O ato deles nada tinha a ver com uma reparação razoável e justa do crime cometido contra Diná.
A atitude de ambos vai ser profundamente reprovada por Deus, ao ponto de ambos perderem a primogenitura e a proeminência sobre Israel, que recairá sobre Judá (de onde veio o Messias). Apesar dos erros humanos de todos os lados, os planos de Deus estavam se cumprindo e sendo reafirmados na história.


Há um paradoxo interessante. Em Abraão, a promessa era que “todas as nações da terra" seriam enxertadas na árvore israelita. Ao mesmo tempo, Israel aparece como um povo que precisa ser santo, e para não se contaminar com a idolatria e costumes dos outros povos, precisaria se manter longe deles. Como resolver esse problema? Como a salvação poderia chegar aos siquemitas? Como eles poderiam ser “enxertados” no povo da promessa?
Era necessário um israelita santo ao ponto de resgatar esses povos sem se contaminar com eles, alguém disposto a ser violentado por eles, algum representante que não fosse tentado pela idolatria e pela imoralidade sexual destes povos. Alguém que pudesse expiar o pecado deles e ensiná-los a viver na Lei de Deus. Quando na cruz, Jesus tomou sobre si os pecados e ofensas contra Deus, Cristo era tanto a parte ofendida pela profanação como também a parte destruída, como punição pela ofensa. Deus, ao despejar toda sua ira sobre Jesus, torna a cruz esse símbolo paradoxal de uma justiça implacável e ao mesmo tempo de um perdão implacável. Uma vez que toda dívida foi paga, na Cruz de Cristo, a Canaã celestial pode ser habitada por pecadores como eu e você. Pela fé em Jesus, judeus e não-judeus podem ser um só rebanho do Eterno.


"Portanto, não há distinção entre judeus e gentios, pois o mesmo Senhor é Senhor de todos e abençoa ricamente todos os que o invocam" (Romanos 10:12)

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A revelação de Jesus Cristo em Gênesis 33: Eram 100 moedas

Jacó tinha tanto medo de Esaú que ele organiza estrategicamente sua família e todos os seus pertences em grupos, organizando-os por ordem de importância, deixando mais atrás aqueles que ele considerava mais importantes. Ficando ele próprio por último (Gn 32.22). Depois de ter um encontro com Deus, Jacó agora tem suas prioridades mudadas. Jacó quando vê Esaú se aproximando, se coloca na frente de todos. Um homem de verdade não usa sua família e os outros como escudo, mas deve protegê-la como Cristo protege a igreja e se entregou por ela. A mudança de comportamento de Jacó, nos mostra que ele saiu deste encontro com Deus realmente marcado, e muito mais parecido com Jesus.

Jacó se coloca humildemente diante de seu irmão, apresenta-se como um servo. Aquele homem que confiava na força do seu trabalho, agora reconhece ao seu irmão que sua prosperidade e filhos eram fruto de uma imerecida bondade de Deus (v.5).Jacó sabiamente ofereceu seus bens e posses como presentes para aplacar a ira de seu irmão. Jacó insiste para que Esaú aceite seu presente (v.11). Este no singular mesmo, pois o termo hebraico usado aqui é a mesma palavra que “benção”. Ou seja, Jacó estava “devolvendo” a bênção que havia roubado de Esaú. Jacó desistiu de sua bênção para que Esaú se reconciliasse com ele. Esta atitude inesperada demonstra o que o descendente perfeito de Jacó também faria milênios depois: Jesus abriu mão do seu direito de igualdade com Deus para reconciliar o mundo (2Co 5.16-21, Fp 1.6-8). Esaú aparentemente aceitou a oferta de Jacó como um pagamento pelo que o fizera. Esaú tinha seu interesse nos presentes que Deus poderia lhe dar, mas desprezava a herança pactual e o relacionamento com Deus (25.19-34; cf. Hb 12.16).

Na sequência, Jacó não aceita seguir com Esaú e decide ir para Siquém. Existe a possibilidade de Jacó ter enganado novamente Esaú, mas pelo contexto, parece mais provável que Esaú sabia que era uma forma polida de não contradizê-lo, e assim recusar a oferta de Esaú, sem provocar-lhe a ira. Jacó finalmente chega na terra prometida (Canaã), e compra um terreno dos filhos de Hamor pelo valor de cem moedas. No texto original podemos ler במאה קשיטה bemeah kesitah, uma moeda que tinha como nome “cordeiro”. E ele compra o direito de habitar na terra prometida com uma moeda carimbada com a figura de um cordeiro.


O meu desejo é que você, assim como Jacó, possa ter um encontro real com Jesus Cristo. Que o Espírito Santo te revele o descendente perfeito de Jacó, Aquele que pode aplacar a ira justa, de um Deus infinitamente Justo, contra os seus pecados. Que o Espírito Santo sopre, em sua mente e coração, o nome dAquele que foi na frente e apresentou-se a si mesmo como oferta pelo seu pecado. Mude sua vida, arrependa-se dos seus pecados, peça perdão para quem você ofendeu, para que o seu Pai celestial perdoe suas ofensas e como Jacó, agarre-se a Jesus com todas as suas forças (mesmo que ela seja pouca e insuficiente). Que esses símbolos que Deus deixou por toda a Bíblia, te ajudem a conhecer mais profundamente a história do Cordeiro que foi morto para comprar o seu direito de habitar eternamente na Terra Prometida.

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sexta-feira, 22 de abril de 2022

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A revelação de Jesus Cristo em Gênesis 32: Jacó luta com Jesus

Jacó não é uma figura exemplar. Sua conduta e atitudes não eram a de um fiel servo do Senhor, não combinam com o que se esperaria de um descendente direto da promessa de Abraão, com alguém que o Senhor havia escolhido e confirmado o seu pacto. Dificilmente Jacó poderia ser considerado um mediador entre Deus e as diversas nações circunvizinhas, até porque parece que ele falhou neste papel em sua própria casa. Ele falhou miseravelmente como porta-voz de Deus e como intercessor. Jacó exibia o caráter da humanidade decaída no pecado que necessita de libertação e restauração de Deus. E a semente, chamada para servir, estava grandemente necessitada do próprio serviço que devia prestar. Deus havia dado família, bênçãos e prosperidade, mas agora Deus estava prestes a transformar o caráter de Jacó. Jacó se angustia com os 400 homens de Esaú que estão vindo contra ele, uma possível referência com a angústia da descendência de Israel no Egito por 400 anos (Veja meu comentário sobre Gênesis 15). Jacó prefigura o que o povo de Israel passaria ao longo de sua história, e se divide em dois bandos (Israel futuramente se dividiu em Reino do Norte e Reino do Sul). Assim como foi a conversão de Jacó, assim também será a conversão de Israel num futuro próximo (Romanos 11:26), e assim é a conversão de todos os crentes (O Israel espiritual). Jacó, acostumado a resolver as coisas pela sua própria força, pelos seus próprios meios, finalmente ora. Nesta oração Jacó reconhece ser indigno das misericórdias do Senhor. Jacó estava preocupado em ter de lutar com Esaú, mas o pior acerto de contas era com Deus. Jacó fez passar adiante tudo quanto possuía e ficou sozinho. Era apenas Deus e Jacó agora. E neste momento, um homem misterioso vem lutar com Jacó. No verso 24, o texto bíblico diz que era um homem (do hebraico “Ish”) que veio confrontar Jacó, já nos versos 28 e 30, este homem foi identificado como sendo o próprio Deus (אלהים, pronunciado "Elohim"). Quem seria este que é homem e ao mesmo tempo era Deus? Como você já pode imaginar, só poderia ser o próprio Deus-Homem, Jesus Cristo. Jesus muitas vezes foi identificado como O ANJO DO SENHOR, e neste sentido seria correto dizer que foi “o anjo” que lutou com Jacó. O profeta Oséias diz que “O ANJO” lutou com Jacó, mas não um anjo qualquer (Os 12:4). Um simples anjo é apenas um mensageiro de Deus e executor das suas ordens (Salmos 103:20,21), Um simples anjo não teria autoridade para abençoar por si mesmo alguém (versículo 29). E ninguém jamais viu a Deus, senão por meio do Deus-Homem (João 1:18). Jacó era um homem forte (Gn 29:10), acostumado a conquistar pela força do seu próprio braço. Aqui não foi diferente, mesmo avançado em idade ele resiste ao homem. Jacó “luta” com Deus durante toda a madrugada. O dia já raiava, era hora de Jacó seguir viagem. Então, o Deus-Homem apenas lhe tocou na articulação da coxa e deslocou a junta da coxa de Jacó (o centro da articulação de um lutador, v.31). Mesmo assim, Jacó parece insistir pedindo "Não te deixarei ir se não me abençoares", o profeta Oséias diz que Jacó ao lutar com o anjo “chorou e lhe pediu graça” (Oséias 12:4). O Deus-Homem pergunta “Qual o teu nome?”, ele respondeu "Jacó" (que significaria responder em português “Enganador”). Depois de uma resposta quase confessional, o Deus-Homem disse "Já não te chamarás Jacó, mas Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste" (v.28). Israel vem de um acróstico "Ki Sarita El" que significa "Príncipe de Deus", "Lutador de Deus" ou ainda "Deus luta". A mesma raiz no hebraico para "Iashar El", que significa "retificar" e "justificar". Daí que vem a palavra "Ieshurum" (Dt 32:14; Deut 33:5; Deut 33:26; Is 44:22) que significa "o Reto, o Justo" e sempre aparece se referindo ao Messias. A missão de Israel está ligada com a justificação e salvação do mundo. Embora pareça que Jacó e mais tarde todo o povo de Israel fracassaram na sua missão de abençoar/enxertar todas as nações da terra no Deus verdadeiro, na verdade essa missão foi cumprida plenamente no Messias. Portanto Israel cumpre sua missão na pessoa do Messias. Jesus Cristo é o descendente perfeito de Jacó que encarna a missão de Israel. Jesus Cristo também sob o mesmo cajado mantém dois bandos (que são o mesmo povo), tanto a igreja dos judeus, como a igreja dos gentios. Jesus, o príncipe de Deus, sendo o “Jacó perfeito”, ficou sozinho com Deus, e foi ferido e então teve vitória na cruz. E essa vitória resultou em reconciliação para o mundo. Que esse encontro na beira do rio Jaboque, um rio que deságua no Jordão, e o Jordão por sua vez simboliza Jesus (Jordão significa “Aquele que desce”), nos lembre que absolutamente tudo deságua em Jesus. Jacó até parece um homem do nosso tempo. Um homem comum com anseios comuns, com pecados comuns, com uma religiosidade mística e comum mas que não afeta seu caráter de modo profundo e significativo. Um homem acostumado a ganhar seu dinheiro, fazer suas coisas, e resolver seus problemas na força do próprio braço. A sua religião é meritocrática. Um homem que barganha e negocia boas obras em troca do favor divino (Gn 28:20-21). Mas um dia este homem em meio às preocupações da vida comum foi surpreendido por Deus. Aquele Deus subjetivo e distante, a realidade que não afetava sua vida cotidiana, agora se torna plenamente conhecido em Jesus Cristo e vem confrontá-lo e feri-lo. Para vencer essa luta, é preciso perder. Neste enfrentamento, o que se pensava forte percebe-se fraco, percebe sua dependência de Deus e em lágrimas clama por graça e misericórdia. Confessa seu real estado de engano e foi para sempre marcado por Deus. E assim Deus faz nascer um novo homem. “Vi Deus face a face e minha vida foi salva” (Gn 32:30).

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terça-feira, 22 de março de 2022

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A revelação de Jesus Cristo em Gênesis 31: A Grande Reversão

A benção de Deus sobre Jacó se tornou motivo de incômodo para Labão. O avarento Labão fez de tudo para enganar Jacó, e por várias vezes mudou o salário de Jacó para o prejudicar por meio de acordos injustos. Mesmo por meio desses acordos injustos Deus fazia Jacó continuar prosperando. Todo o tempo de sofrimento na casa de Labão foi importante para forjar o caráter de Jacó, fazê-lo prosperar, e crescer a família da promessa. Deus apareceu para Jacó e ordenou que ele retornasse para a casa de seu pai. Jacó reuniu todos os seus pertences e se dirigiu à terra de Canaã (v18). Não sabemos porque Raquel levou consigo as imagens de escultura de seu pai. (v19), poderia ser por algum misticismo ou mesmo para futuramente requerer as propriedades de seu pai, por serem objetos diretamente associados ao direito de herança naquele tempo. Labão sente falta de suas imagens de escultura, e persegue Jacó, mas Deus aparece para Labão em sonho e ordena que ele não faça nada contra Jacó. Labão alcançou Jacó, e Jacó desabafa:

"Vinte anos estive com você. Suas ovelhas e cabras nunca abortaram, e jamais comi um só carneiro do seu rebanho. Eu nunca levava a você os animais despedaçados por feras; eu mesmo assumia o prejuízo. E você pedia contas de todo animal roubado de dia ou de noite. O calor me consumia de dia, e o frio, de noite, e o sono fugia dos meus olhos. Foi assim nos vinte anos em que fiquei em sua casa. Trabalhei para você catorze anos em troca de suas duas filhas e seis anos por seus rebanhos, e dez vezes você alterou o meu salário. Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão, o Temor de Isaque, não estivesse comigo, certamente você me despediria de mãos vazias. Mas Deus viu o meu sofrimento e o trabalho das minhas mãos e, na noite passada, ele manifestou a sua decisão" (Gênesis 31:38-42)


Não tendo do que acusar Jacó, Labão propõe um pacto de amizade entre eles. Após a irada discussão, eles curiosamente separaram-se em paz. Apesar de toda a maldade de Labão, e todas as injustiças contra Jacó, Deus fez prosperar o trabalho e a família de Jacó. Deus redirecionou toda a intenção maligna para o bem. Todo o sofrimento que Jacó passou, na verdade, estava colaborando para cumprir a promessa de fazer de Jacó uma grande nação.


Isso é plenamente visto na cruz de Jesus. Nunca houve algo mais injusto, covarde e cruel do que o assassinato do inocente Jesus de Nazaré, num complô que envolveu traição, depoimentos falsos, construção de uma narrativa mentirosa, tortura e humilhação pública. Mas por meio destes atos repugnantes, Deus cumpriu tudo aqui que havia prometido para Jacó. A vitória final de Cristo, começou com uma aparente derrota, numa vergonhosa cruz. Tendo começado pela humilhação e morte, Deus transformou todo sofrimento em benção para o mundo. Deus conseguiu da mais terrível abominação já cometida, do maior pecado de todos, Deus gerou benção e salvação para o mundo… Que isso nos lembre sempre, que não importa quão sombrias as coisas se tornem, não importa quão difícil seja a situação, Deus cumprirá seus bons propósitos. Deus é bom o tempo todo, e o mal não terá a palavra final.

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