domingo, 6 de setembro de 2026

16:07 - No comments

Jesus em Êxodo 23: O Anjo que tem o Nome de Deus

Acusações falsas; testemunhas; justiça; pobres; inocentes; inimigos; suborno; julgamento. O justo no tribunal dos injustos. Várias leis demonstram que Deus está estabelecendo uma sociedade justa. E pra que isso aconteça, Israel deve seguir a figura misteriosa de um Anjo.

Deus estabelece os sábados (de dias e de anos) e as 3 festas de peregrinação (para entender o significado de todas as festas, veja o meu comentário de Levitico 23). Mas aqui em Êxodo 23, Deus diz “Ninguém apareça diante de mim de mãos vazias” (v15). Todos devem entrar diante de Deus por meio de sacrificios. E na sequência diz “Não ofereçam o sangue do meu sacrifício com pão fermentado, nem deixem que a gordura da minha festa fique durante a noite até a manhã seguinte”. A gordura (ḥēleb) possui um papel especial no sistema sacrificial. “Toda a gordura será do Senhor” (Levítico 3:16) Portanto, não devemos imaginar a gordura simplesmente como aquilo que hoje chamamos de “gordura” ou algo sem valor. No sistema sacrificial, ela era uma porção especialmente pertencente a Deus. Isso cria um princípio importante: aquilo que pertence ao Senhor não deve ser abandonado como uma sobra qualquer.

E olha que interessante: os judeus pedem que Jesus seja retirado da cruz porque, segundo Deuteronômio 21:22–23, o cadáver daquele que fosse pendurado no madeiro não deveria permanecer ali durante a noite, mas deveria ser sepultado no mesmo dia. Sem perceber, ao cumprirem essa determinação da Lei, eles acabaram reproduzindo também esse princípio que encontramos em Êxodo 23:18: aquilo que está relacionado ao sacrifício não deveria permanecer durante a noite até a manhã. Jesus, o verdadeiro Cordeiro Pascal, morre justamente no contexto da Páscoa e é retirado da cruz antes do início do sábado. Resumindo, na crucificação de Jesus, os judeus ao cumprirem Deuteronômio 21:22–23, eles também estavam, sem querer, cumprindo Êxodo 23:18.

Agora leia com bastante atenção:


“Eis que eu envio um Anjo adiante de vocês, para que os guarde pelo caminho e os leve ao lugar que tenho preparado. Deem atenção a ele e ouçam o que ele diz. Não se rebelem contra ele, porque não perdoará a transgressão de vocês; pois nele está o meu nome. Mas, se vocês ouvirem atentamente o que ele disser e fizerem tudo o que eu ordeno, então serei inimigo dos que são inimigos de vocês e adversário dos que são adversários de vocês. Porque o meu Anjo irá adiante de vocês…” Êxodo 23:20-23


Ué, que anjo é esse que pode escolher perdoar ou não os pecados? Não é apenas Deus que perdoa pecados? É sim, mas quem disse que esse “Anjo” não é o próprio Deus?

 

O próprio padrão das aparições do “Anjo do Senhor” impede que ele seja reduzido simplesmente a um anjo criado. Há fortes razões para entendê-lo como um ser divino. Em Gênesis 16:7–11, o Anjo do Senhor encontra Agar, ordena que ela volte e fala como o próprio Senhor, prometendo: “eu multiplicarei sobremodo a tua descendência”; em Gênesis 21:17, novamente o Anjo de Deus fala em primeira pessoa e promete: “eu farei dele um grande povo”. Embora Deus e o Anjo sejam apresentados como duas personalidades, é o Anjo quem pronuncia a promessa divina, algo que dá forte apoio à sua natureza divina. São duas pessoas, mas ambos falam como Deus. O mesmo ocorre em Gênesis 22:11–18: o Anjo do Senhor impede Abraão de sacrificar Isaque, fala como aquele a quem Abraão não negou o filho e, logo depois, declara: “Jurei por mim mesmo, diz o Senhor”. Observe que o Anjo não apresenta essas palavras como simples citação de um superior; ele fala como o próprio Deus. Em Gênesis 31:11–13, o Anjo do Senhor aparece a Jacó e identifica-se como “o Deus de Betel”; e em Gênesis 32:24–30, a figura que aparece a Jacó é relacionada simultaneamente a “um homem”, “Deus” e “um anjo” (cf. Os 12:3–4). Portanto, o padrão não é o de um anjo comum, anjo comum não aceita adoração, não fala como Deus, mas como servo de Deus. Já o Anjo do Senhor é uma figura que fala na primeira pessoa divina, faz promessas divinas e recebe uma identificação que ultrapassa a categoria de criatura.


Ele possui autoridade para guiar Israel, exigir obediência e, sobretudo, não perdoar a transgressão, enquanto Deus afirma que “o meu nome” está nele. No versículo seguinte, a obediência ao Anjo é colocada em paralelo com a própria obediência a Deus: “se diligentemente ouvires a sua voz e fizeres tudo o que eu disser...” (Êx 23:22). E, no v. 23, esse Anjo é aquele que vai diante de Israel para conduzi-lo e derrotar seus inimigos. No Êxodo, o Anjo de Deus aparece como aquele que guia e protege Israel (Êxodo 14:19; 23:20,23; 32:34; cf. 33:2) Assim, quando colocamos Gn 16:7–11; 21:17–18; 22:11–18; 31:11–13; 32:24–30; Os 12:3–4 em conjunto com Êx 23:20–23; 32:34; 33:2, surge uma conclusão lógica: o Anjo do Senhor não é apresentado como um mero anjo criado que apenas entrega mensagens de Deus, mas como uma manifestação pessoal (e em alguns casos até humana) da presença divina — distinto de Deus e, ao mesmo tempo, portador do nome, autoridade e prerrogativas de Deus. É justamente essa tensão entre distinção e identidade divina que torna a figura tão importante para a posterior compreensão cristã da revelação de Jesus.


Me surpreende também o fato de que não parece existir nenhum risco de idolatria com esse Anjo. E é curioso que em nenhum momento estava na preocupação de Deus algum tipo de idolatria que poderia acontecer, e não há nenhuma advertência para não reverenciar e adorar este Anjo. Talvez, porque adorar esse Anjo, é adorar a Deus. Uma pessoa diferente do Pai, mas que também é Deus. Já viu isso em algum lugar?

Antigo Testamento: “pois nele habita o meu nome” (Êxodo 23:21)
Novo Testamento: “nele (Jesus) habita corporalmente toda a plenitude de Deus” (Cl 2:9).

Está escrito que os israelitas no deserto tentaram a Cristo (1 Coríntios 10:9). E está mais do que claro que Jesus era o mensageiro de Deus, e o Redentor da igreja do antigo e do novo testamento. Jesus é quem guia o seu povo até a Terra prometida, o lar celestial que Deus 

prometeu para Abraão e para todo aquele que crer e seguir a Cristo. Cristo preparou um lugar para os seus seguidores, e irá protegê-los até o fim.

O Anjo está indo para a Terra prometida. Mas nós não podemos ir na frente Dele. Ele vai monstrar o caminho. Então Ele próprio é o seu caminho, basta segui-lo e obedecê-lo. Deus poderia fazer eles dominarem a terra prometida inteira imediatamente, mas Ele o faria gradualmente, com sabedoria e prudência (29,30), não de uma só vez, mas pouco a pouco, dando tempo para que Israel ficasse tão numerosa a ponto de povoar toda a terra. Nós também devemos observar o progresso gradual dos interesses do povo de Deus, e a queda gradual de todos os seus inimigos ao longo da história, assim Deus mantém seu povo protegido e continuamos dependentes de Deus. Nossos corações também gradualmente vão sendo conquistados pelo Espírito Santo, e os nossos pecados vão sendo gradualmente expulsos das nossas vidas.

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Tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, a ordem de Deus é a mesma:
“Este é o meu amado Filho, em quem me comprazo; escutai-o.” (Mateus 17:5)



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15:20 - No comments

Jesus em Êxodo 22: Quando a Restituição se Torna Impossível

À primeira vista, Êxodo 22 parece ser apenas uma coleção de leis civis. O capítulo fala sobre furtos, restituição, empréstimos, danos à propriedade, proteção dos pobres, das viúvas e dos órfãos, honestidade nos negócios e santidade diante de Deus. Cada uma dessas leis revela o caráter do Legislador. Deus é justo. Deus protege os vulneráveis. Deus exige responsabilidade pelos nossos atos. Deus não ignora o pecado, nem trata o mal como algo sem consequências. Aprendemos que a injustiça cria uma dívida e que toda dívida exige reparação. Um dos grandes temas do capítulo é a restituição. Quem roubava deveria devolver mais do que havia tomado. A verdadeira justiça não consiste apenas em interromper o erro, mas em restaurar aquilo que havia sido perdido.


Em Êxodo 22:3, lemos:

"O ladrão terá de restituir plenamente o que roubou; se, porém, não tiver nada com que pagar, será vendido para pagar o roubo."

Na prática, a Lei previa um limite: se a pessoa não tivesse bens para restituir, ele seria vendido como servo para trabalhar até quitar sua dívida. O objetivo não era apenas punir, mas garantir que a vítima fosse reparada. Mas e se a dívida fosse tão grande que jamais pudesse ser paga?

A Lei não descreve explicitamente esse cenário, provavelmente porque as restituições tratavam de bens concretos (animais, dinheiro, propriedades), que, em sua esmagadora maioria, podiam ser compensados com trabalho ao longo do tempo. Mas existem muitos casos em que a reparação é impossível: imagine alguém que roubou bilhões e já gastou o dinheiro, como ele devolveria 4 vezes mais como ordena a Lei? Não poderia. A dívida continuaria existindo, mesmo que ele jamais tivesse condições de quitá-la totalmente.

Poderíamos pensar em um motorista embriagado que mata uma família. Ele pode ser preso e indenizar os parentes, mas nunca poderá devolver a vida das vítimas.
Uma calúnia ou falso testemunho, que destrói a reputação de alguém. Mesmo que depois a verdade apareça, muitas vezes o emprego, os relacionamentos e a confiança nunca são completamente restaurados.
Pais que abandonam ou abusam dos filhos. Anos depois podem pedir perdão, mas não conseguem devolver a infância que foi perdida.

A própria Lei tratou de casos, em que o erro era irreparável e mudava de categoria. Por exemplo: Em caso de assassinato você não podia "restituir" uma vida. Êxodo 21:12: "Quem ferir alguém, e este morrer, certamente será morto." Ou seja, alguns danos simplesmente não é possivel restituição. A própria Lei começa a mostrar que existem pecados cuja dívida ultrapassa qualquer pagamento humano.

Algumas questões surgem diante disso:

1) Como Deus poderia perdoar alguém com uma dívida “impagável” se a restituição que a própria Lei de Deus determina não foi satisfeita?

2) A Lei de Deus parece não possibilitar que assassinos sejam perdoados diante de Deus. Embora haja casos no Antigo Testamento em que Deus perdoou assassinos arrependidos (por exemplo Manassés e Davi). Como Deus pode perdoar um pecado tão grave, sem deixar de ser Justo e sem contrariar sua Lei? Pois mesmo a Lei de Deus permitindo o sacrifício de animais como uma forma de perdoar pecados. Quem poderia ser oferecido e que fosse maior e mais valioso do que uma vida humana? Um animal por esse resgate não seria equivalente e a Lei não permitia sacrifício humano.

3) Quem teria tanto valor de modo que poderia se oferecer e sua entrega satisfizer pelo menos 4 vezes ou 5 vezes mais do que qualquer delito em aberto?

4) Se Deus perdoasse alguém com uma dívida não restituída, Ele não seria contraditório?

A resposta para essas questões só pode ser uma: O próprio Deus precisaria se oferecer como pagamento. Somente o Deus encarnado pode satisfazer o nível de justiça que a Lei de Deus exige. Êxodo 22 clama por Jesus. Êxodo 22 torna Jesus necessário. 

A coisa se torna mais complicada quando percebemos que todo pecado é um ato de roubar de Deus a glória devida ao seu nome. Nós roubamos a glória de Deus. Quanto deveríamos restituir? Infinitamente. Mas ninguém consegue pagar uma dívida infinita. Se levar as últimas consequências (e a Justiça de Deus demanda que seja), tudo deverá ser pago até o último centavo (ou até a última gota).
Quando Zaqueu encontrou Jesus, sua primeira reação foi restituir 4 vezes mais aquilo que havia tomado injustamente. A graça produziu aquilo que a Lei nunca poderia produzir: um coração transformado que ama a justiça. Entretanto, nem mesmo Zaqueu poderia reparar todos os seus pecados diante de Deus. Sua restituição era um fruto do arrependimento, não o preço da sua salvação.

E isso nos conduz ao último versículo do capítulo. Deus ordena que Israel não comesse carne de um animal encontrado dilacerado no campo, mas poderia ser dado aos cães. A ideia é que o povo santo não deve participar da carne de um animal cuja morte ocorreu fora da ordem estabelecida por Deus. Era uma carne que continha sangue e não havia sido abatida conforme a Lei. Por outro lado, Cristo é a pérola que não deve ser dada aos cães (Mateus 7:6). Ele diz "Tomai, comei; isto é o meu corpo" (Mateus 26:26), isso nos mostra que Jesus não foi uma vítima qualquer da violência humana; Ele foi o sacrifício providenciado pelo próprio Deus, não num campo qualquer, mas no altar escolhido por Deus, conforme toda a ordem estabelecida na Lei. Sua morte satisfez plenamente a justiça que a Lei exigia e realizou a restituição que jamais poderíamos oferecer.

“Ninguém tira a minha vida; pelo contrário, eu espontaneamente a dou.” (João 10:18)



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14:27 - No comments

Jesus em Êxodo 21: O Escravo de Orelhas furadas


Ao ler a Lei mosaica, é importante lembrar de um princípio revelado pelo Novo Testamento: certas permissões da Lei não expressavam o ideal original de Deus, mas foram toleradas temporariamente por causa da dureza do coração humano. Jesus afirmou isso ao tratar do divórcio (Mateus 19:8), e Paulo explica que Deus “suportou os pecados anteriormente cometidos” em sua paciência (Romanos 3:25).

Por isso, a Lei deve ser entendida dentro da história da redenção: ela não era o alvo final da obra de Deus, mas uma etapa pedagógica que apontava para algo maior. Como afirma Paulo, “a Lei foi acrescentada por causa das transgressões” e funcionou como um tutor de criança até a idade da maturidade que é Cristo (Gálatas 3:19–24). A realidade perfeita não está na Lei, mas em Cristo, para quem toda a Lei apontava.

Nesse sentido, Êxodo 21 nos ajuda a perceber como Deus começou a tratar uma sociedade marcada pelo pecado. Em vez de simplesmente ignorar as estruturas sociais existentes, Deus passou a regulá-las, restringindo abusos e estabelecendo princípios de justiça que, com o tempo, conduziram a humanidade a uma compreensão mais profunda da dignidade humana.

O Novo Testamento revela com clareza aquilo que no Antigo Testamento ainda estava em forma de semente: em Cristo há igualdade absoluta. “Não há judeu nem grego, escravo nem livre… porque todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). Senhores e escravos têm o mesmo Senhor no céu (Efésios 6:9).

Na carta a Filemom, Paulo pede que Onésimo seja recebido “não mais como escravo, mas como irmão amado” (Filemom 1:16). A liberdade é apresentada como desejável, e Paulo incentiva que os escravos aproveitem a oportunidade de se libertar, caso ela apareça (1 Coríntios 7:21). Afinal, Cristo nos chamou para a liberdade e não para sermos escravos de homens (Gálatas 5:1; 1 Coríntios 7:23).

Assim, quando analisamos as leis de Êxodo 21 com atenção, percebemos que elas não legitimam a crueldade, mas estabelecem limites claros contra ela.

Em Israel, a servidão hebraica não era permanente. O servo deveria servir por no máximo seis anos e sair livre no sétimo (Êxodo 21:2). Em alguns casos, seria libertado ainda antes, por ocasião do Jubileu. Além disso, ao sair, não deveria partir de mãos vazias: o senhor deveria suprir-lhe recursos para recomeçar a vida (Deuteronômio 15:12–14).

A legislação também indica que o servo recebia compensação equivalente a metade do salário de um trabalhador contratado (Deuteronômio 15:18), participava do descanso sabático (Êxodo 20:10), podia possuir bens e até acumular riqueza (Levítico 25:47–49; 2 Samuel 9:10). Repare o que encontramos em Êxodo 21 são leis que visavam proteger os escravos: Por exemplo: No versículo 16, determina a pena de morte para quem raptar e vender alguém. Ou seja, o tráfico de escravos, era proibido pela lei bíblica.
No versiculo 8 ao 11, cria-se proteção adicional para mulheres.
No versiculo 20 e 21 estabelece que se alguém matar um escravo, será morto.
No versiculo 23-25, diz que qualquer dano que o senhor fizer no servo será feito nele o mesmo dano. Vida por vida. Olho por olho. Dente por dente. Ferimento por ferimento. Golpe por golpe.
No versiculo 27 diz que se o senhor agir com violência contra o escravo, além de ser punido com a mesma violência que ele praticou, o escravo será livre. O escravo poderia procurar a justiça, e processar o seu senhor, e os juízes de Israel libertariam o escravo como indenização pela violência praticada.

Esse capítulo é muito valioso e ilustrativo para entendermos o papel da Lei Mosaica na história da redenção: Toda história biblica nos mostra que Deus trabalha de maneira progressiva dentro da história humana. Ele começa restringindo abusos, estabelecendo justiça mínima e dignidade dentro de uma sociedade imperfeita. Mais adiante, princípios mais profundos são revelados  Ou seja, Deus regula uma realidade marcada pelo pecado enquanto conduz gradualmente seu povo a um padrão mais elevado. E isso se aplica não somente neste assunto, mas em todos os outros.

Portanto, a pergunta não é apenas “por que Deus tolerou?”, mas também “como Deus começou a transformar uma sociedade imperfeita?”. O movimento bíblico não começa com uma revolução política imediata, mas com a limitação do mal, a proteção do vulnerável e, finalmente, a transformação do coração humano. A Biblia não se propõe a transformar a sociedade como uma revolução imediata, a Biblia transforma pessoas. Pessoas transformam a sociedade.

No meu comentário sobre Êxodo 8, eu explico em detalhes porque o foco não era simplesmente liberdade política ou social, mas algo muito mais profundo: a adoração. Deus não apenas liberta o seu povo da escravidão; Ele os liberta para Si. A liberdade é o meio, a adoração é o objetivo. De certo modo, esse é o resumo do livro de Êxodo: O livro começa com escravos sendo libertos do Egito e termina com a construção do Tabernáculo para que Deus seja adorado no meio do seu povo. O fim da opressão não é autonomia absoluta, mas o relacionamento com Deus.

A Escritura tem um propósito muito bem definido. Seu propósito central é revelar Deus e sua obra de redenção em Cristo. Talvez alguém argumente que muitas vidas teriam sido poupadas se a Bíblia ensinasse a fabricar penicilina, por exemplo, mas este não é o propósito das Sagradas Escrituras. O propósito das Escrituras é revelar algo infinitamente mais importante: A história da redenção e o Evangelho de Jesus. E é exatamente isso que vemos aqui: Deus pega uma das maiores crueldades (a escravidão) e através dela aponta para Aquele que colocará fim a toda crueldade: O Servo Perfeito.

“Estes são os juízos que lhes proporás: Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça. Se entrou só, só sairá; se era homem casado, sua mulher sairá com ele. Se seu senhor lhe deu mulher, e ela lhe deu filhos ou filhas, a mulher e seus filhos serão de seu senhor, e ele sairá só. Porém, se o servo expressamente disser: Eu amo meu senhor, minha mulher e meus filhos; não quero sair livre; então seu senhor o levará aos juízes; e o levará à porta ou à ombreira da porta; e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre” (Êx. 21:1–6).

Temos aqui um prenúncio da obra de Jesus. No Salmo 40:6, a profecia apresenta o próprio Messias falando: “Sacrifício e oferta não quiseste; abriste (ou cavaste) meus ouvidos”. Cristo se identifica como sendo ele mesmo o verdadeiro servo de orelhas furadas, e as profecias biblicas frequentemente apresentavam o Messias com esse caráter:
“Eis o meu Servo, a quem sustenho” (Is. 42:1).
“Eis que trarei o meu Servo, o Renovo” (Zc. 3:8).
“Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado” (Is. 52:13).
“Pelo seu conhecimento o meu Servo justo justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is. 53:11).

Em Filipenses 2 somos exortados: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.”

Não é chocante? O Senhor do céu e da terra assumindo a posição de sujeição. Aquele diante de quem os serafins não ousam olhar tornando-se menor que os anjos. Um livro inteiro do Novo Testamento é dedicado exclusivamente a apresentar o serviço do Servo perfeito: o Evangelho de Marcos mostra como Ele serviu com excelência, como ele trabalhou exaustivamente, serviu e se entregou como ninguém.

“Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb. 10:9) foi o que Jesus disse ao assumir a forma de Servo. “Não sabíeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” (Lc. 2:49) são Suas primeiras palavras registradas após vir a este mundo. “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo. 6:38) resume toda a Sua vida perfeita entre os homens. Como Servo perfeito, Ele dependia inteiramente do agrado de Seu Mestre. “Não agradou a si mesmo” (Rm. 15:3). “Estou entre vós como aquele que serve” (Lc. 22:27).

Existe uma enorme dívida entre todos os homem e Deus. Uma dívida impagável. Você pecou e, de muitas maneiras, roubou a Deus. Roubou-Lhe a honra, a obediência e a glória que Lhe eram devidas. Jesus se vendeu como escravo para pagar essa dívida, por isso veio em forma de escravo. Em Êxodo 21:32, Deus estabelece o preço de um escravo como 30 moedas de prata, o mesmo preço que Judas receberia para entregar Jesus (Mateus 26:14–15). Jesus serviu a Deus e aos homens, viveu uma vida perfeita, honrando a Deus exatamente onde Ele havia sido desonrado. Como a profecia previa 700 anos antes o que o Messias faria: O Senhor se agradou dele por amor da sua justiça; Jesus engrandeceu a lei e a fez gloriosa. (Isaías 42:21).

Nos livros dos profetas a expressão “Orelha furada” vai ser usada como uma figura de linguagem para “ouvir a palavra de Deus”, “ter os ouvidos abertos“, se referindo a uma postura de obediência a Palavra (Isaías 50:4), assim como os escravos tem uma postura de obediência absoluta aos seus senhores. Abrir as orelhas era um sinal visível de servidão permanente. Quando o Pai declarou Seu pleno agrado: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” Ali, quanto à Lei, Jesus poderia ter ido diretamente à glória. Mas Jesus preferiu ser furado no madeiro.

“Porém, se o servo expressamente disser: Eu amo meu senhor, minha mulher e meus filhos; não quero sair livre, então seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta ou à ombreira, e lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre.” (Êxodo 21:5–6).

Jesus amou tanto o Pai, a igreja e os filhos que Deus lhe deu, que o amor levou Cristo a abrir mão de Sua liberdade legítima. Amor tríplice. Ele escolheu voluntariamente o caminho da cruz. O furo na orelha é um símbolo de sua dedicação total e permanente. Cristo entregou-Se completamente à vontade do Pai e ao serviço daqueles que ama. E esse serviço não terminou na cruz. Em João 13 vemos uma bela figura disso: o Senhor, cingido com uma toalha, lavando os pés dos discípulos, como os escravos faziam. E a Escritura nos diz que Ele servirá “para sempre.” Em Lucas 12:37 lemos que, quando vier o Reino, Ele mesmo se cingirá e fará com que os Seus se assentem à mesa, e os servirá. Mesmo glorificado, o Filho de Deus continuará a ministrar por amor eterno.

Repare que o local de furar as orelhas do escravo é no mesmo lugar que os israelitas colocavam o sangue do cordeiro na Páscoa (Ex 12:7), na mesma madeira que simbolizava a cruz do Senhor.

Nós temos muito mais motivos para nos engajar em servir a Deus para sempre. Nós temos todas as razões do mundo para amar ao nosso Mestre e à sua obra, sua humildade, e a ter nossas orelhas furadas junto aos umbrais das suas portas, como quem não deseja ser liberado do seu serviço, mas encontrar-se cada vez mais livre nele, viver mais para ele, adorá-lo mais e viver em intimidade com o Senhor para sempre. Que o Senhor nos ajude a obedecer à palavra.

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.” (Fp. 2:5)


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Jesus em Êxodo 20: O Sermão do Monte Sinai

Deus não libertou e abençoou Israel porque Israel seguiu a Lei de Deus, porque até este momento nem havia sido dada a Lei para ser seguida. Deus não abençoou Israel porque eles foram bons meninos no Egito, nem lhes deu Maná no deserto ou vitória sobre os amalequitas porque seguiram uma lista de mandamentos, regras ou tinham méritos próprios. Tudo isso aconteceu por causa da graça soberana de Deus, fundamentada em Sua promessa feita a Abraão, Isaque e Jacó. Israel foi libertado, sustentado e protegido antes da Lei, para que ficasse claro que a obediência não é a causa da redenção, mas a resposta a ela.


Por isso os dez mandamentos começam com a declaração da Graça de Deus: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.” (Êxodo 20:2). Esse padrão de Deus se relacionando com seu povo no Êxodo não é o padrão que encontramos na religião judaica rabinica posterior, e em nenhuma outra religião do mundo. Toda religião é meritocrática. Há uma única exceção: o Evangelho de Jesus. Nem mesmo o judaismo ortodoxo segue o padrão encontrado no Monte Sinai, só o Evangelho de Jesus carrega este padrão ainda hoje. No Evangelho primeiro Cristo nos liberta por Graça, e depois Ele nos ensina a seguir a sua Lei. Primeiro Deus tira você do Egito, depois Ele tira o Egito de você. Primeiro Ele te salva, depois Ele te santifica. Graça é o padrão de Êxodo, e Graça é o padrão único do Evangelho.


Ao redimi-los, Deus tinha adquirido um direito adicional de governá-los. Deus os comprou.

A redenção não cancela as reivindicações que Deus tem sobre os homens como Suas criaturas. Pelo contrário, essas reivindicações continuam a ser exigidas; porém, o novo relacionamento no qual a redenção nos introduz impõe responsabilidades adicionais, ou, falando com mais precisão, fornece um motivo adicional para reconhecer e cumprir as reivindicações de Deus sobre nós. Seria errado qualquer pessoa no mundo infringir um dos dez mandamentos, mas a transgressão de um israelita tinha um peso maior. Logo, a redenção não anula a Lei, pelo contrário, a pressupõe: “O Senhor teu Deus te remiu; por isso hoje te ordeno estas coisas” (Dt 15:15).


Por isso seria um engano achar que em Cristo não há mais nenhuma Lei. Pois Paulo deixa claro que “Não estando sem Lei para com Deus, mas debaixo da Lei de Cristo” (1 Coríntios 9:21). Embora a Lei de Moisés reflete principios eternos da Lei de Deus, elas não são exatamente a mesma coisa. Repare que a Lei de Deus existia antes do Pacto do monte Sinai: “Até quando recusareis guardar os meus mandamentos e as minhas leis?” (Êx 16:28). E como profetizado por Jeremias, a Lei de Deus continuaria existindo mesmo depois que a Lei Mosaica fosse substituída por uma nova aliança (Jeremias 31:31-34). A Lei de Deus foi expressa de modo parcial pela Lei de Moisés, e de modo completo pela Lei de Cristo.


A Lei de Moisés é parte fundamental do Pacto do Monte Sinai. Deus estava se casando com Israel, Deus estava estabelecendo os termos da sua Aliança com eles. O pacto era baseado na obediência absoluta, eles precisavam se manter obedientes em todos os termos da Lei (Dt 27:26).  A Lei foi dada para conter o pecado de Israel (Êxodo 20:20). A Lei do Monte Sinai portanto era transitória, ela é um parênteses na história entre a Promessa e o cumprimento da promessa em Cristo, ela duraria até que viesse o mediador do novo pacto. Por isso o Apóstolo Paulo diz: "Para que serve, pois, a Lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse o Descendente […] Antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da Lei […] De maneira que a lei se tornou nosso guardião (ou pedagogo) para nos conduzir a Cristo, a fim de que fôssemos justificados pela fé. Mas, agora que veio a fé, já não permanecemos subordinados ao guardião.” (Gálatas 3:19-29)
A Lei ao mostrar o padrão perfeito de Deus, evidenciou e mostrou o pecado dos homens. Mostrou o cancêr do pecado, mas não tinha poder para resolvê-lo. 

 “Todo o povo percebeu os trovões, os relâmpagos, o clangor da trombeta e o monte fumegante; e, vendo isso, afastaram-se e ficaram de longe. E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos” (Ex20:18–19).

Agora a terra tremia à presença do Senhor, e os montes saltavam como cordeiros (SI 114.4,7), pois o próprio Sinai, embora duro e rochoso, estava pegando fogo por completo, derreteu-se diante do Senhor (Juizes 5.5). A Lei foi entregue diante de um terror extraordinário. Nunca nada foi entregue de forma tão impressionante e aterrorizante. Trovões e relâmpagos, muito mais altos e brilhantes, estrondos fortes e imponentes. E por que a lei foi dada desta maneira tão terrível, e com toda esta tremenda cerimônia? Deus pretendia fazer uma revelação perceptível da Sua majestade gloriosa, isso ajudaria nossa fé, uma vez conhecendo o terror do Senhor, possamos ser persuadidos a viver no seu temor. É também uma amostra do julgamento de um Deus justo e santo. Desta maneira, a lei foi dada a Moisés de maneira que pudesse assombrar, assustar e humilhar os homens.
Eles deveriam ser curados da sua presunção e de qualquer arrogância. Eles imploraram que a palavra não mais fosse proferida a eles (Hb 12.19), mas suplicaram que Deus lhes falasse por intermédio de Moisés. E foi neste momento que Deus promete um outro Profeta semelhante a Moisés:

“O Senhor, o seu Deus, levantará do meio de seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no. Pois foi isso que pediram ao Senhor, ao seu Deus, em Horebe, no dia em que se reuniram, quando disseram: "Não queremos ouvir a voz do Senhor, do nosso Deus, nem ver o seu grande fogo, se não morreremos!". O Senhor me disse: "Eles têm razão! Levantarei do meio dos seus irmãos um profeta como você; porei minhas palavras na sua boca, e ele lhes dirá tudo o que eu lhe ordenar. Se alguém não ouvir as minhas palavras, que o profeta falará em meu nome, eu mesmo lhe pedirei contas” (Deuteronômio 18:15-19)

Israel percebe que não pode se relacionar diretamente com Deus, eles precisavam de um mediador. E Deus diz que eles estão certos, mas repare: Deus não diz que Moisés seria esse mediador. Ele promete outra pessoa. E essa outra pessoa seria semelhante a Moisés, seria um profeta, as palavras de Deus estariam na boca dele. Lembra a profecia do Anjo do Senhor (Êxodo 23:20–21). Alguns rabinos modernos dizem que esse texto é referência a Josué, outros dizem que seriam os profetas de Israel, mas nenhum destes respeitam a literalidade do texto. Apenas a interpretação cristã respeita o texto sem fazer um malabarismo para interpretá-lo. A profecia é clara: é um único profeta (singular) e semelhante a Moisés. Em Deuteronômio 34:10 afirma: “Nunca mais se levantou em Israel profeta como Moisés”. Então já não poderia ser Josué e nem um dos profetas. Fica evidente que era uma profecia futura para mencionar uma pessoa que seria singular na história. Nenhum profeta, mas somente o Messias poderia ser comparável a Moisés. O próprio Midrash Rabbah reconhece que “Assim como foi o primeiro redentor, assim será o último redentor”.

Moisés como mediador até atendia à necessidade do lado do povo, mas não do lado de Deus. Quem seria o mediador por Moisés? Além disso, não bastaria apenas um mediador para satisfazer as justas exigências de Deus. Era necessário tratar o pecado, os pecados precisam ser pagos. Por isso, a próxima coisa mencionada no texto é um altar. O altar é a provisão para o fracasso de Israel, É a prova que Deus sabia que eles seriam incapazes de satisfazer tais reivindicações; por isso Deus, em Sua maravilhosa graça, fez provisão tanto para o fracasso deles quanto para a manutenção das reivindicações divinas.
O Tabernáculo ainda não havia sido erguido, essas instruções deveriam ter cumprimento imediato: um altar de terra deveria ser construído ao pé do Sinai. Isso se confirma em Êxodo 24:4, onde Moisés edificou um altar e ofereceu holocaustos e sacrifícios pacíficos. Assim se cumpre o propósito: uma festa no deserto (Êx 5:1), Se Israel viesse a Deus, um altar deveria ser erguido. Feito do próprio chão, simples e sem ornamentos humanos, assim era o Calvário, o altar definitivo onde o Filho encarnado, feito do pó da terra como nós, oferecido como sacrifício perfeito.

“em todo o lugar, onde eu fizer celebrar a memória do meu nome, virei a ti e te abençoarei.” (v.24), Se cumpre plenamente apenas no Evangelho. pelo qual os homens são encorajados a orar e prestar culto em todos os lugares, Em todos os lugares onde o povo de Deus celebra o Seu Nome, Jesus prometeu que estará no meio deles. O Senhor virá até eles, e os abençoará.

“Se me fizeres altar de pedras, não o edificarás de pedras lavradas” (v. 25). A simplicidade do altar contrasta com os ídolos pagãos. Nada do que a habilidade humana produz pode glorificar-se diante de Deus:

“Se levantares a tua ferramenta sobre ele, o profanaste”. A proibição de usar ferramentas no altar ensina que o homem não pode acrescentar nada ao meio de expiação estabelecido por Deus. Esse princípio encontra seu cumprimento supremo em Cristo, cuja obra é perfeita e não admite complementos humanos. Assim como a ferramenta profanava o altar, as obras humanas não podem aperfeiçoar a graça. As pedras não lavradas mostram que nenhuma mão humana poderia “moldar” o Salvador; ninguém conseguiu alterar Sua forma. O profeta Daniel disse que Cristo seria “uma pedra cortada sem auxílio de mãos humanas” (Daniel 2:34). 


Não subirás por degraus ao meu altar” (v. 26). Ao contrário da torre de babel e ao contrário dos templos pagãos, o homem não pode subir até Deus por meios próprios; deve tomar seu lugar no pó. Não é o homem que sobe até os céus, é Deus que desce até o pecador (Fp 2:6–8). Não há degraus para o homem subir.

“…para que a tua nudez não seja exposta” (v. 26). As tentativas humanas de aproximar-se de Deus apenas expõem a nudez e a vergonha humana. Os esforços do homem apenas evidenciam sua nudez.

Acaso é com degraus e altares que a Lei está preocupada? Ou com o coração dos homens? Tudo isso foram símbolos para nosso aprendizado.

Se observarmos o livro de Mateus, o livro da transição entre o Antigo e o Novo Testamento, o evangelho de Mateus constrói Jesus como a recapitulação da história de Israel, não apenas como Messias, mas como o Israel fiel, que cumpre aquilo que a nação falhou em cumprir. 

Israel começa com Abraão, e no capitulo 1, Mateus começa a genealogia de Jesus por Abraão. Mateus diz que Jesus nasce pelo Espírito Santo. Isso indica que Ele não é apenas herdeiro da história de Israel, Ele é um novo começo. Assim como Israel foi chamado “filho” (Êx 4:22), Jesus é declarado Filho de forma plena e definitiva.

No capítulo 2, Mateus conta que Jesus vai para o Egito para não ser morto, Herodes mata as crianças (paralelo com Faraó). Mateus faz referência aqui tanto ao Êxilio no Egito como ao Êxilio na Babilonia (Mateus 2:17–18). Jesus sai do Egito (Oséias 11:1: “Do Egito chamei o meu Filho), e refaz a história do Êxodo. 

Depois da saída dos filhos de Israel do Egito, o que aconteceu? Eles passaram pelas águas do mar vermelho. No capítulo 3, Mateus fala de Jesus sendo batizado e passando pelas águas do Rio Jordão (como o Novo Israel e o Novo Josué).
Depois da travessia do Mar Vermelho, Israel ficaria 40 anos no deserto. No capítulo 4 de Mateus, depois de ser batizado no rio Jordão, Jesus fica 40 dias no deserto. Jesus é tentado por Satanás no deserto em 3 coisas, as mesmas tentações que levaram Israel a falhar no deserto:
1) Tentação do Pão/Provisão de Deus:

Israel falha: “Quem dera tivéssemos morrido no Egito” (Êxodo 16:2)

Jesus responde: “Nem só de pão viverá o homem” (Mateus 4:3–4) - Jesus estava citando Deuteronômio 8:3, que relembra o episódio do maná.

Onde Israel murmurou. Jesus confiou na providência de Deus.


2) Tentação de Testar Deus (Massá):

Israel exige água e tenta a Deus dizendo: “Está o Senhor no meio de nós ou não?” (Êxodo 17:1–7).

Jesus quando tentado respondeu: “Não tentarás o Senhor teu Deus.” (Mateus 4:5–7) - Jesus estava citando Deuteronômio 6:16 — referência direta a Massá.


3) Idolatria:

Israel por não aceitar o tempo de Deus, eles trocam a glória de Deus por idolatria. (Êxodo 32:1–8)

Jesus se submete a Deus e diz: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás.” (Mateus 4:8–10 - citando Deuteronômio 6:13)


E o que acontece depois com Israel? Israel recebe a Lei de Deus no Monte Sinai.
No capítulo 5 de Mateus, Jesus sobe ao monte e começa a ensinar os termos da Nova Aliança. No deserto, a glória do Senhor, apareceu, diante dos olhos de todo o povo. Agora Cristo, que é a glória do Senhor aparece no Monte diante dos olhos de todos. Não mais um monte na Arábia, mas agora num Monte na Terra Prometida.
A Lei de Moisés havia sido entregue pelos anjos (Dt 33.2 / Atos 7.53), no sermão do Monte pelo próprio Deus encarnado.

O discurso do sermão do monte é muito duro. Em alguns casos, os fariseus e escribas minimizavam a intenção da Lei ao mínimo exigível. Por exemplo, os dez mandamentos proibiram o adultério. Os mestres da Lei consideravam como adultério apenas “o ato”, todo o resto não seria proibido. Jesus afirma no sermão do monte os principios por trás da Lei, o que inevitavelmente a torna ainda mais difícil de ser cumprida. Jesus diz que o desejo e o olhar intencional já é adultério do coração. Jesus ampia o entendimento da Lei ao focar no seu princípio. Ele revela a intenção original da Lei: A Lei sempre quis atingir o coração. Ele remove interpretações que reduziam o alcance moral.
A interpretação comum era de que só é culpado diante de Deus quem mata fisicamente. Jesus revela que a ira e o insulto já violam o espírito do mandamento.
Jesus não anula os mandamentos. Ele os internaliza. A Lei deixa de ser uma série de rituais de “pode ou não pode”, pra produzir vidas realmente transformadas. Não bastam Lei escritas em tábuas de pedra, Deus precisa escrever suas Leis nas Tabuás do nosso coração. Não são suficientes mudanças externas, a velha natureza precisa morrer. Deus precisa operar o novo nascimento no coração do pecador.

O objetivo da Lei Mosaica era mostrar a incapacidade dos homens em segui-la. Os fariseus e mestres afrouxaram a Lei para sentirem-se em paz nos seus pecados, para enganarem a si mesmos e fugirem da verdade inconveniente: A Lei é justa e perfeita, mas nós não conseguimos seguir a Lei. Era pra Israel ter aprendido com o autor do Salmo 119, ele  amava a Lei do Senhor (v.127), ele meditava nela dia e noite (v97), ele procurava manter puro o seu coração observando toda a Lei do Senhor (v.10), Ele sofria perseguição por causa da sua fidelidade a Lei de Deus (v. 69), Ele via a Lei de Deus como fonte de vida (v. 25). Ele se tornou mais sábio do que todos os mestres, porque meditava na Lei de Deus (v99). Esse jovem era incrível. Mas como ele termina o Salmo? A Lei de Deus fez ele perceber que ele era um pecador: “Ando errante como ovelha perdida; procura o teu servo, pois não me esqueço dos teus mandamentos” (Salmos 119:176).


No sermão do monte, Jesus mostra que é impossível seguir a Lei. Mas nem por isso Ele afroxa as exigências de Deus, muito pelo contrário. Ele diz aos seus discipulos “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus.” e diz que “eu não vim destruir a lei ou os profetas: não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til jamais passará da lei, sem que tudo seja cumprido” (Mateus 5:17,18).

Ele torna impossível, porque seria Ele que cumpriria. É evidente que pelo cumprimento da Lei ninguém poderia ser salvo. Então a Lei foi dada também para mostrar ao homem sua necessidade de um Salvador: (Gl 3:19, 23–24). Portanto, os dez mandamentos apontam diretamente pra nescessidade de Cristo.


A boa notícia de que Jesus Cristo cumpriu a Lei de forma perfeita e completa, e morreu segundo a Lei para ser o cordeiro que a Lei exigia para perdão de pecados, essa boa notícia do Evangelho só parecerá mesmo uma boa notícia para aqueles que observaram a Lei e da Lei receberam a má notícia: “você é um pecador”. Pois a Lei revela o caráter santo de Deus e, ao mesmo tempo, expõe a nossa incapacidade. Ela ilumina, confronta, pesa sobre a consciência — não para destruir, mas para conduzir ao arrependimento.

A boa notícia de que o Espírito Santo agora escreve a Sua Lei nas tábuas do nosso coração não significa o abandono da Lei, mas a sua internalização. Aquilo que antes estava apenas em mandamentos externos agora se torna inclinação interior. Não é mais mera obrigação; é desejo. Não é apenas regra; é vida.

A justiça que antes nos condenava agora é cumprida em nós, não por força própria, mas pela união com Cristo e pela obra regeneradora do Espírito. O que antes era letra que acusava torna-se Palavra viva que transforma.

Assim, o Evangelho não anula a Lei. Ele a cumpre em Cristo e a realiza em nós. A condenação dá lugar ao perdão; o medo cede à confiança; a obediência nasce do amor.

E então, finalmente, a Lei deixa de ser apenas um espelho que revela a culpa e passa a ser também o caminho pelo qual, reconciliados com Deus, aprendemos a andar como filhos.

O Sinai formou uma nação. O Sermão do Monte forma o povo do Reino de Deus.

"o cumprimento da lei é o amor" (Romanos 13:8–10)


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12:20 - No comments

Jesus em Êxodo 19: Nação de Sacerdotes ao terceiro dia

Não havia nada na aliança de Deus com Abraão que Israel pudesse “guardar”. Ela era incondicional. Mas aqui, no Sinai, Deus propôs fazer outra aliança, uma aliança com duas partes, tanto Deus como Israel teriam suas responsabilidades no pacto, uma aliança que Israel deveria “guardar” se quisesse desfrutar das bênçãos decorrentes dela. Em resposta à proposta de Deus, Israel aceitou dizendo: “Então todo o povo respondeu a uma só voz, e disse: Tudo o que o Senhor tem falado faremos” (v. 8). 

Mas repare que em Josué 7, a Bíblia diz que Acã foi o autor direto de um pecado contra a Lei de Deus. Mesmo assim, Deus declara: que “Israel pecou e transgrediu a minha aliança” (Js 7:11). Fica eviente que Israel não era tratado apenas como indivíduos isolados, mas como um povo em aliança, uma unidade corporativa. E fica evidente também que o padrão aceitável para Deus é a perfeição, e nada menos do que isto. O pecado de um único indivíduo quebrou toda a aliança de Deus com o corpo pactual de Israel. Mas também a santidade e justiça de um único homem por mais de uma vez já salvou todo o povo  (Êxodo 32:10/Números 25:1–13).

“se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda a terra seja minha. Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa’. (Êxodo 19:5,6)

Se Israel tivesse guardado a sua parte na Aliança (o que nunca aconteceu), o texto diz claramente que toda Israel seria uma nação de sacerdotes, todos os israelitas seriam sacerdotes. Cada israelita (tudo indica que as mulheres inclusive) seriam um sacerdote para as outras nações. O sacerdócio não ficaria confinado dentro de uma “elite espiritual”. Israel seria o povo escolhido por Deus para ensinar os outros povos. Quando Israel quebrou a aliança pela primeira vez no caso do bezerro de ouro, e apenas Levi permaneceu fiel, Deus usa apenas Levi como sacerdote para ensinar Israel. E o resto do mundo continuou na escuridão. Mais tarde, inclusive Levi vai corromper a aliança (Jr 6:13/Ezequiel 22:26), o que demonstra que o sistema levítico precisava ser provisório, e por isso o profeta Jeremias vai dizer explicitamente que Deus faria uma nova aliança com Israel (Jeremias 31:31–34).

Moisés, sendo o Mediador do Pacto, deveria preparar Israel para se encontrar com Deus. Deus manda Moisés santificar o povo. Estranhamente foi atribuido a ele a função de santificar o povo. Creio que apontando para o papel santificador do Mediador do Novo Pacto.
Deus apareceria a vista de todos ao terceiro dia para confirmar sua aliança com Israel. Uma manifestação do próprio Senhor (cf. Dt 5:24).

“Disse também o Senhor a Moisés: Vai ao povo e santifica-o hoje e amanhã, e lavem as suas vestes; e estejam prontos para o terceiro dia; porque no terceiro dia o Senhor descerá à vista de todo o povo sobre o monte Sinai.” (v.10 e 11).

O povo devia “santificar-se”, chegando até a lavar as suas roupas. Quão claramente isso indicava para qualquer pessoa, até mesmo pra uma criança conseguir entender, que o Deus Santo se aproxima apenas de um povo limpo e que é o pecado que separa o Criador de Suas criaturas.

“E aconteceu que, ao terceiro dia pela manhã, houve trovões e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e um clangor de trombeta mui forte; de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu” (v. 16).

Que bela forma de manifestar a dignidade, a santidade e a grandeza daquele com quem Israel estava firmando a aliança. Não se deve esquecer que, no próprio céu, o apóstolo João no livro Apocalipse contempla um trono do qual “procediam relâmpagos, trovões e vozes” (Ap 4:5), exatamente os mesmos sinais testemunhados no Sinai.

Ao terceiro dia, o texto reforça que foi pela manhã, quando Israel seria feito um reino de sacerdotes ainda que não tenha durado tempo nenhum por conta do pecado do povo, o sacerdócio nacional morreu no berço. Mas foi ao terceiro dia, também pela manhã que Jesus ressuscitou dos mortos, Mas dessa vez o problema do pecado havia sido solucionado, por uma nova aliança. Se no antigo pacto de Moisés o pecado de um homem afetava todo o corpo pactual de Israel, assim como a santidade de um único homem afetava toda a comunidade… Imagine agora a santidade, justiça e pureza de Cristo sendo contabilizada em benefício de toda a comunidade do novo pacto. Desta maneira, todos os crentes são, por intermédio de Cristo, feitos sacerdotes e reis para o nosso Deus (Ap 1.6), uma geração eleita, um sacerdócio real (1 Pedro 2.9). E como a igreja cristã, que é composta de judeus e gentios, homens e mulheres, não tem uma Nação-Estado mas está espalhada entre todas as nações do mundo, a igreja de Cristo é literalmente uma nação santa e sacerdócio real entre as nações do mundo. Cristo não concentrou seus sacerdotes em um santuário, mas os espalhou pelo mundo, para que toda a terra se tornasse lugar de serviço e adoração. Os sacerdotes de Cristo não estão confinados a templos ou altares: estão espalhados pelo mundo inteiro. Do silêncio das plantações de arroz no sudeste asiático, aos sapateiros de Wittenberg, às salas de aula de química e física no norte da África, às igrejas da Oceania, às ruas barulhentas de Nova York... eles e elas vivem como mediadores vivos, fazendo de cada lugar um altar e de cada vocação um serviço santo. Em todos os lugares, Cristo sempre levantará um representante.

 “Para que o povo ouça, falando eu contigo, e para que também te creiam eternamente” (v. 9). Foi da vontade de Deus estabelecer a fé no Mediador. Israel precisava crer no mediador do Pacto. Primeiramente por uma manifestação perceptível da glória divina, e depois deveria ter continuidade, de modo mais silencioso, pelo ministério de Moisés. De igual maneira, o Espírito Santo desceu visivelmente sobre Cristo, no seu batismo, e todos os que estavam presentes ouviram Deus falando com Ele (Mt 3.17), para que posteriormente, sem a repetição de tais sinais visíveis, pudessem crer Nele.

Podemos aprender com este texto também que mesmo quando Deus informa a Moisés o seu claro propósito de descer sobre o monte Sinai, em alguma aparição visível da sua glória, Ele o faz em uma “nuvem espessa” (v. 9). Pois Ele disse que habitaria nas trevas (2 Cr 6.1), e delas fez seu pavilhão (Sl 18.11), encobrindo a face do seu trono, quando o estabeleceu sobre o monte Sinai, e sobre ele estende a sua nuvem (Jó 26.9). Esta nuvem espessa tem pelo menos duas finalidades: A primeira é conter a curiosidade irreverente do homem diante das coisas ocultas de Deus. Ao velar sua glória, o Senhor estabelece limites claros entre o Criador e a criatura, ensinando que a verdadeira adoração não nasce da investigação presunçosa do mistério, mas da submissão humilde àquilo que Deus decidiu revelar. O que é oculto pertence ao Senhor; e a nós compete saber o que Ele quis revelar em sua palavra.
A segunda finalidade da nuvem é protetora. Ela atua como um escudo misericordioso entre Israel e a glória divina, pois o Deus que se revela é o mesmo Deus cuja santidade é consumidora. Se a glória do Senhor fosse plenamente exposta, o povo pecador e ainda não mediado por um sacerdócio definitivo, não poderia subsistir. Assim, a nuvem não diminui a presença de Deus; ao contrário, ela a torna suportável, permitindo que o Deus santo se aproxime sem destruir aqueles a quem deseja redimir. A nuvem, portanto, não é sinal de ausência, mas de presença controlada, uma pedagogia divina que prepara o povo para compreender que só pela mediação — e não pela exposição direta — o homem pode permanecer diante do Deus Santo.

Tanto na Igreja como no Sinai, sacerdócio e mediação do pacto são coisas distintas. Assim como os sacerdotes no Sinai precisaram do Mediador do Pacto (Êx19:24), os cristãos da Nova Aliança embora tenham sido feitos sacerdotes em Cristo, nenhum deles se aproxima de Deus por si mesmo. Nem mesmo o sacerdócio universal elimina a necessidade de mediação. Pelo contrário, ele a pressupõe. Toda a nossa ousadia, toda a nossa adoração e todo o nosso serviço só são possíveis porque há um Mediador perfeito, definitivo e eterno.

Assim, o que Israel não conseguiu viver por causa do pecado, Deus realizou plenamente em Cristo. O sacerdócio nacional que “morreu no berço” do Sinai renasce gloriosamente na ressurreição. Antes purificados por lavagens externas, mas agora pelo sangue que nos lava por dentro. Enviados não a um monte, mas ao mundo; não a um território, mas às nações; não a um templo, mas a toda a criação. O Sinai apontava para isso. O terceiro dia anunciava isso. E a Igreja vive hoje aquilo que Israel apenas contemplou à distância: um povo inteiro feito sacerdócio santo, sustentado não pela sua própria fidelidade, mas pela fidelidade do Mediador do Novo Pacto.


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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

20:47 - No comments

Jesus em Êxodo 18: Maravilhoso Conselheiro

Enquanto os próprios israelitas estavam murmurando, apesar de toda a bondade de Deus para com eles, aqui vemos um midianita que se alegrava pelas obras de Deus. Esta não foi a única vez em que a fé dos gentios envergonhou a incredulidade dos israelitas (Mateus 8.10).  Jetro, um gentio, se alegra com tudo o que o Senhor havia feito. Ele reconhece a grandeza de Deus, bendiz o Seu nome e confessa o Senhor. Essa cena é marcante, porque mostra algo que se repetiria muitas vezes na história bíblica: gentios (não judeus) reconhecendo a ação de Deus com mais sensibilidade do que o próprio povo da aliança. Isso antecipa o caminho do Evangelho, no qual Jesus seria recebido por muitos de fora, enquanto era rejeitado pelo seu próprio povo.


A próxima cena é muito curiosa aos leitores do Novo Testamento: um gentio depois de reconhecer e confessar o nome do Senhor, senta-se à mesa com os israelitas na presença de Deus. Eles tinham comunhão entre si, porque tinham em comum um banquete e um mesmo sacrifício (v.12). Eles se unem em um banquete de alegria, um banquete sobre o sacrifício. Um gentio é aceito na comunhão com Moisés e os anciãos de Israel. Ele também era filho de Abraão. É interessante que foi Jetro que ofereceu holocaustos para Deus, pois era um sacerdote em Midiã, e o sacerdócio ainda não tinha sido instituído em Israel. 

Eles comeram pão. Este pão, podemos supor, era o maná, Jetro devia ver e provar este pão do céu e, embora fosse gentio, era tão bem vindo a ele como qualquer israelita. 

Assim é a mesa do Senhor Jesus: Todo gentio que de todo coração confessar o Nome do Senhor Jesus (Romanos 10:9-13) pode se assentar a mesa da comunhão com o povo de Deus, e pode oferecer adoração a Deus, pois está unido ao povo de Deus por meio do mesmo sacrifício do Calvário. Os gentios continuam sendo bem-vindos a mesa do Senhor, e convidados a se alimentar de Cristo que é o pão que desceu do céu:


“E maravilhou-se Jesus, ouvindo isto, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé. Mas eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente, e assentar-se-ão à mesa com Abraão, e Isaque, e Jacó, no reino dos céus” (Mateus 8:10,11)


Jetro orienta Moisés a organizar o governo de Israel por meio da delegação. Moisés permanece como único mediador diante de Deus, função que ninguém poderia assumir, enquanto homens capacitados passam a julgar as questões cotidianas. Esse modelo revela que liderança não é acumular tarefas, mas delegar responsabilidades. Moisés continua como cabeça, e os demais cooperam como membros do corpo. De modo semelhante, Cristo é o cabeça da Igreja e o único mediador diante de Deus, mas delega autoridade e responsabilidade com os que lhe pertencem. Assim, Êxodo 18 já antecipa o Reino: um Rei soberano no centro e um governo compartilhado com os fiéis.

Imagine que Moisés estivesse atendendo na praça principal da sua cidade e você pudesse tirar dúvidas, buscar aconselhamento sobre seu casamento com ele, ou pedir dicas para a educar seus filhos no caminho do Senhor, ou talvez compreender melhor algum mandamento que não ficou tão claro… Seria incrível, né? Por mais incrível que possa parecer, esse texto nos mostra que o velho Moisés era bastante limitado. Talvez você daria sorte de encontrar com Moisés num dia bom e ele seria um professor dedicado, mas talvez você acabasse encontrando ele depois de um dia cansativo de trabalho, e ele já estivesse esgotado, e você teria uma resposta não tão dedicada assim. Além do que, dependendo do tema que você perguntasse a Ele, talvez ele não teria uma resposta para dar, por causa da sua própria limitação humana. Se ainda sim parece incrível buscar um conselho com Moisés, espere para conhecer um conselheiro ainda melhor: Jesus Cristo. O profeta Isaías disse que o Cristo seria um “Maravilhoso conselheiro” (Isaías 9:6). E de fato Ele é. Ele não se cansa, nem se fatiga. Você não precisa pegar uma imensa fila pra falar com ele alguns poucos minutos. Você não pega fila. Não tem intermediários. Pode passar o tempo que quiser com Ele. Diferente de Moisés, Jesus não está limitado ao espaço nem ao tempo. Você não depende de estar no “lugar certo” ou no “dia certo” para encontrá-lo. Ele está sempre acessível, sempre atento, sempre disposto a ouvir. Não há perguntas inconvenientes, não há horários de atendimento, não há cansaço do outro lado.

Além disso, Jesus não apenas aconselha, Ele conhece profundamente o coração humano. Moisés podia julgar causas externas; Cristo discerne intenções, medos, dores e pecados que nem sempre conseguimos expressar em palavras. Ele não responde apenas ao que dizemos, mas ao que realmente precisamos ouvir.

E há algo ainda mais extraordinário: Jesus não nos orienta de fora, como alguém que apenas observa. Ele caminha conosco. Ele habita em nós pelo Espírito Santo. O conselho de Cristo não é pontual, é contínuo. Não é uma conversa ocasional na praça; é uma presença constante no caminho.

Por isso, quando buscamos direção para o casamento, para a criação dos filhos, para decisões difíceis ou para compreender a vontade de Deus, não estamos recorrendo a um líder cansado ao fim do dia, mas ao Filho eterno, cheio de graça e verdade. Nele não há limitação, não há esgotamento, não há incerteza.

O maravilhoso conselheiro não apenas aponta o caminho, Ele é o próprio Caminho.

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