domingo, 6 de setembro de 2026

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Jesus em Êxodo 19: Nação de Sacerdotes ao terceiro dia

Não havia nada na aliança de Deus com Abraão que Israel pudesse “guardar”. Ela era incondicional. Mas aqui, no Sinai, Deus propôs fazer outra aliança, uma aliança com duas partes, tanto Deus como Israel teriam suas responsabilidades no pacto, uma aliança que Israel deveria “guardar” se quisesse desfrutar das bênçãos decorrentes dela. Em resposta à proposta de Deus, Israel aceitou dizendo: “Então todo o povo respondeu a uma só voz, e disse: Tudo o que o Senhor tem falado faremos” (v. 8). 

Mas repare que em Josué 7, a Bíblia diz que Acã foi o autor direto de um pecado contra a Lei de Deus. Mesmo assim, Deus declara: que “Israel pecou e transgrediu a minha aliança” (Js 7:11). Fica eviente que Israel não era tratado apenas como indivíduos isolados, mas como um povo em aliança, uma unidade corporativa. E fica evidente também que o padrão aceitável para Deus é a perfeição, e nada menos do que isto. O pecado de um único indivíduo quebrou toda a aliança de Deus com o corpo pactual de Israel. Mas também a santidade e justiça de um único homem por mais de uma vez já salvou todo o povo  (Êxodo 32:10/Números 25:1–13).

“se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vocês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda a terra seja minha. Vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa’. (Êxodo 19:5,6)

Se Israel tivesse guardado a sua parte na Aliança (o que nunca aconteceu), o texto diz claramente que toda Israel seria uma nação de sacerdotes, todos os israelitas seriam sacerdotes. Cada israelita (tudo indica que as mulheres inclusive) seriam um sacerdote para as outras nações. O sacerdócio não ficaria confinado dentro de uma “elite espiritual”. Israel seria o povo escolhido por Deus para ensinar os outros povos. Quando Israel quebrou a aliança pela primeira vez no caso do bezerro de ouro, e apenas Levi permaneceu fiel, Deus usa apenas Levi como sacerdote para ensinar Israel. E o resto do mundo continuou na escuridão. Mais tarde, inclusive Levi vai corromper a aliança (Jr 6:13/Ezequiel 22:26), o que demonstra que o sistema levítico precisava ser provisório, e por isso o profeta Jeremias vai dizer explicitamente que Deus faria uma nova aliança com Israel (Jeremias 31:31–34).

Moisés, sendo o Mediador do Pacto, deveria preparar Israel para se encontrar com Deus. Deus manda Moisés santificar o povo. Estranhamente foi atribuido a ele a função de santificar o povo. Creio que apontando para o papel santificador do Mediador do Novo Pacto.
Deus apareceria a vista de todos ao terceiro dia para confirmar sua aliança com Israel. Uma manifestação do próprio Senhor (cf. Dt 5:24).

“Disse também o Senhor a Moisés: Vai ao povo e santifica-o hoje e amanhã, e lavem as suas vestes; e estejam prontos para o terceiro dia; porque no terceiro dia o Senhor descerá à vista de todo o povo sobre o monte Sinai.” (v.10 e 11).

O povo devia “santificar-se”, chegando até a lavar as suas roupas. Quão claramente isso indicava para qualquer pessoa, até mesmo pra uma criança conseguir entender, que o Deus Santo se aproxima apenas de um povo limpo e que é o pecado que separa o Criador de Suas criaturas.

“E aconteceu que, ao terceiro dia pela manhã, houve trovões e relâmpagos, e uma espessa nuvem sobre o monte, e um clangor de trombeta mui forte; de maneira que todo o povo que estava no arraial se estremeceu” (v. 16).

Que bela forma de manifestar a dignidade, a santidade e a grandeza daquele com quem Israel estava firmando a aliança. Não se deve esquecer que, no próprio céu, o apóstolo João no livro Apocalipse contempla um trono do qual “procediam relâmpagos, trovões e vozes” (Ap 4:5), exatamente os mesmos sinais testemunhados no Sinai.

Ao terceiro dia, o texto reforça que foi pela manhã, quando Israel seria feito um reino de sacerdotes ainda que não tenha durado tempo nenhum por conta do pecado do povo, o sacerdócio nacional morreu no berço. Mas foi ao terceiro dia, também pela manhã que Jesus ressuscitou dos mortos, Mas dessa vez o problema do pecado havia sido solucionado, por uma nova aliança. Se no antigo pacto de Moisés o pecado de um homem afetava todo o corpo pactual de Israel, assim como a santidade de um único homem afetava toda a comunidade… Imagine agora a santidade, justiça e pureza de Cristo sendo contabilizada em benefício de toda a comunidade do novo pacto. Desta maneira, todos os crentes são, por intermédio de Cristo, feitos sacerdotes e reis para o nosso Deus (Ap 1.6), uma geração eleita, um sacerdócio real (1 Pedro 2.9). E como a igreja cristã, que é composta de judeus e gentios, homens e mulheres, não tem uma Nação-Estado mas está espalhada entre todas as nações do mundo, a igreja de Cristo é literalmente uma nação santa e sacerdócio real entre as nações do mundo. Cristo não concentrou seus sacerdotes em um santuário, mas os espalhou pelo mundo, para que toda a terra se tornasse lugar de serviço e adoração. Os sacerdotes de Cristo não estão confinados a templos ou altares: estão espalhados pelo mundo inteiro. Do silêncio das plantações de arroz no sudeste asiático, aos sapateiros de Wittenberg, às salas de aula de química e física no norte da África, às igrejas da Oceania, às ruas barulhentas de Nova York... eles e elas vivem como mediadores vivos, fazendo de cada lugar um altar e de cada vocação um serviço santo. Em todos os lugares, Cristo sempre levantará um representante.

 “Para que o povo ouça, falando eu contigo, e para que também te creiam eternamente” (v. 9). Foi da vontade de Deus estabelecer a fé no Mediador. Israel precisava crer no mediador do Pacto. Primeiramente por uma manifestação perceptível da glória divina, e depois deveria ter continuidade, de modo mais silencioso, pelo ministério de Moisés. De igual maneira, o Espírito Santo desceu visivelmente sobre Cristo, no seu batismo, e todos os que estavam presentes ouviram Deus falando com Ele (Mt 3.17), para que posteriormente, sem a repetição de tais sinais visíveis, pudessem crer Nele.

Podemos aprender com este texto também que mesmo quando Deus informa a Moisés o seu claro propósito de descer sobre o monte Sinai, em alguma aparição visível da sua glória, Ele o faz em uma “nuvem espessa” (v. 9). Pois Ele disse que habitaria nas trevas (2 Cr 6.1), e delas fez seu pavilhão (Sl 18.11), encobrindo a face do seu trono, quando o estabeleceu sobre o monte Sinai, e sobre ele estende a sua nuvem (Jó 26.9). Esta nuvem espessa tem pelo menos duas finalidades: A primeira é conter a curiosidade irreverente do homem diante das coisas ocultas de Deus. Ao velar sua glória, o Senhor estabelece limites claros entre o Criador e a criatura, ensinando que a verdadeira adoração não nasce da investigação presunçosa do mistério, mas da submissão humilde àquilo que Deus decidiu revelar. O que é oculto pertence ao Senhor; e a nós compete saber o que Ele quis revelar em sua palavra.
A segunda finalidade da nuvem é protetora. Ela atua como um escudo misericordioso entre Israel e a glória divina, pois o Deus que se revela é o mesmo Deus cuja santidade é consumidora. Se a glória do Senhor fosse plenamente exposta, o povo pecador e ainda não mediado por um sacerdócio definitivo, não poderia subsistir. Assim, a nuvem não diminui a presença de Deus; ao contrário, ela a torna suportável, permitindo que o Deus santo se aproxime sem destruir aqueles a quem deseja redimir. A nuvem, portanto, não é sinal de ausência, mas de presença controlada, uma pedagogia divina que prepara o povo para compreender que só pela mediação — e não pela exposição direta — o homem pode permanecer diante do Deus Santo.

Tanto na Igreja como no Sinai, sacerdócio e mediação do pacto são coisas distintas. Assim como os sacerdotes no Sinai precisaram do Mediador do Pacto (Êx19:24), os cristãos da Nova Aliança embora tenham sido feitos sacerdotes em Cristo, nenhum deles se aproxima de Deus por si mesmo. Nem mesmo o sacerdócio universal elimina a necessidade de mediação. Pelo contrário, ele a pressupõe. Toda a nossa ousadia, toda a nossa adoração e todo o nosso serviço só são possíveis porque há um Mediador perfeito, definitivo e eterno.

Assim, o que Israel não conseguiu viver por causa do pecado, Deus realizou plenamente em Cristo. O sacerdócio nacional que “morreu no berço” do Sinai renasce gloriosamente na ressurreição. Antes purificados por lavagens externas, mas agora pelo sangue que nos lava por dentro. Enviados não a um monte, mas ao mundo; não a um território, mas às nações; não a um templo, mas a toda a criação. O Sinai apontava para isso. O terceiro dia anunciava isso. E a Igreja vive hoje aquilo que Israel apenas contemplou à distância: um povo inteiro feito sacerdócio santo, sustentado não pela sua própria fidelidade, mas pela fidelidade do Mediador do Novo Pacto.


*Clique aqui para conhecer a revelação de Jesus em outros capítulos da Bíblia


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