No comments
Jesus em Êxodo 21: O Escravo de Orelhas furadas
Ao ler a Lei mosaica, é importante lembrar de um princípio revelado pelo Novo Testamento: certas permissões da Lei não expressavam o ideal original de Deus, mas foram toleradas temporariamente por causa da dureza do coração humano. Jesus afirmou isso ao tratar do divórcio (Mateus 19:8), e Paulo explica que Deus “suportou os pecados anteriormente cometidos” em sua paciência (Romanos 3:25).
Por isso, a Lei deve ser entendida dentro da história da redenção: ela não era o alvo final da obra de Deus, mas uma etapa pedagógica que apontava para algo maior. Como afirma Paulo, “a Lei foi acrescentada por causa das transgressões” e funcionou como um tutor de criança até a idade da maturidade que é Cristo (Gálatas 3:19–24). A realidade perfeita não está na Lei, mas em Cristo, para quem toda a Lei apontava.
Nesse sentido, Êxodo 21 nos ajuda a perceber como Deus começou a tratar uma sociedade marcada pelo pecado. Em vez de simplesmente ignorar as estruturas sociais existentes, Deus passou a regulá-las, restringindo abusos e estabelecendo princípios de justiça que, com o tempo, conduziram a humanidade a uma compreensão mais profunda da dignidade humana.
O Novo Testamento revela com clareza aquilo que no Antigo Testamento ainda estava em forma de semente: em Cristo há igualdade absoluta. “Não há judeu nem grego, escravo nem livre… porque todos são um em Cristo Jesus” (Gálatas 3:28). Senhores e escravos têm o mesmo Senhor no céu (Efésios 6:9).
Na carta a Filemom, Paulo pede que Onésimo seja recebido “não mais como escravo, mas como irmão amado” (Filemom 1:16). A liberdade é apresentada como desejável, e Paulo incentiva que os escravos aproveitem a oportunidade de se libertar, caso ela apareça (1 Coríntios 7:21). Afinal, Cristo nos chamou para a liberdade e não para sermos escravos de homens (Gálatas 5:1; 1 Coríntios 7:23).
Assim, quando analisamos as leis de Êxodo 21 com atenção, percebemos que elas não legitimam a crueldade, mas estabelecem limites claros contra ela.
Em Israel, a servidão hebraica não era permanente. O servo deveria servir por no máximo seis anos e sair livre no sétimo (Êxodo 21:2). Em alguns casos, seria libertado ainda antes, por ocasião do Jubileu. Além disso, ao sair, não deveria partir de mãos vazias: o senhor deveria suprir-lhe recursos para recomeçar a vida (Deuteronômio 15:12–14).
A legislação também indica que o servo recebia compensação equivalente a metade do salário de um trabalhador contratado (Deuteronômio 15:18), participava do descanso sabático (Êxodo 20:10), podia possuir bens e até acumular riqueza (Levítico 25:47–49; 2 Samuel 9:10). Repare o que encontramos em Êxodo 21 são leis que visavam proteger os escravos: Por exemplo: No versículo 16, determina a pena de morte para quem raptar e vender alguém. Ou seja, o tráfico de escravos, era proibido pela lei bíblica.
No versiculo 8 ao 11, cria-se proteção adicional para mulheres.
No versiculo 20 e 21 estabelece que se alguém matar um escravo, será morto.
No versiculo 23-25, diz que qualquer dano que o senhor fizer no servo será feito nele o mesmo dano. Vida por vida. Olho por olho. Dente por dente. Ferimento por ferimento. Golpe por golpe.
No versiculo 27 diz que se o senhor agir com violência contra o escravo, além de ser punido com a mesma violência que ele praticou, o escravo será livre. O escravo poderia procurar a justiça, e processar o seu senhor, e os juízes de Israel libertariam o escravo como indenização pela violência praticada.
Esse capítulo é muito valioso e ilustrativo para entendermos o papel da Lei Mosaica na história da redenção: Toda história biblica nos mostra que Deus trabalha de maneira progressiva dentro da história humana. Ele começa restringindo abusos, estabelecendo justiça mínima e dignidade dentro de uma sociedade imperfeita. Mais adiante, princípios mais profundos são revelados Ou seja, Deus regula uma realidade marcada pelo pecado enquanto conduz gradualmente seu povo a um padrão mais elevado. E isso se aplica não somente neste assunto, mas em todos os outros.
Portanto, a pergunta não é apenas “por que Deus tolerou?”, mas também “como Deus começou a transformar uma sociedade imperfeita?”. O movimento bíblico não começa com uma revolução política imediata, mas com a limitação do mal, a proteção do vulnerável e, finalmente, a transformação do coração humano. A Biblia não se propõe a transformar a sociedade como uma revolução imediata, a Biblia transforma pessoas. Pessoas transformam a sociedade.
No meu comentário sobre Êxodo 8, eu explico em detalhes porque o foco não era simplesmente liberdade política ou social, mas algo muito mais profundo: a adoração. Deus não apenas liberta o seu povo da escravidão; Ele os liberta para Si. A liberdade é o meio, a adoração é o objetivo. De certo modo, esse é o resumo do livro de Êxodo: O livro começa com escravos sendo libertos do Egito e termina com a construção do Tabernáculo para que Deus seja adorado no meio do seu povo. O fim da opressão não é autonomia absoluta, mas o relacionamento com Deus.
A Escritura tem um propósito muito bem definido. Seu propósito central é revelar Deus e sua obra de redenção em Cristo. Talvez alguém argumente que muitas vidas teriam sido poupadas se a Bíblia ensinasse a fabricar penicilina, por exemplo, mas este não é o propósito das Sagradas Escrituras. O propósito das Escrituras é revelar algo infinitamente mais importante: A história da redenção e o Evangelho de Jesus. E é exatamente isso que vemos aqui: Deus pega uma das maiores crueldades (a escravidão) e através dela aponta para Aquele que colocará fim a toda crueldade: O Servo Perfeito.
“Estes são os juízos que lhes proporás: Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça. Se entrou só, só sairá; se era homem casado, sua mulher sairá com ele. Se seu senhor lhe deu mulher, e ela lhe deu filhos ou filhas, a mulher e seus filhos serão de seu senhor, e ele sairá só. Porém, se o servo expressamente disser: Eu amo meu senhor, minha mulher e meus filhos; não quero sair livre; então seu senhor o levará aos juízes; e o levará à porta ou à ombreira da porta; e seu senhor lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre” (Êx. 21:1–6).
Temos aqui um prenúncio da obra de Jesus. No Salmo 40:6, a profecia apresenta o próprio Messias falando: “Sacrifício e oferta não quiseste; abriste (ou cavaste) meus ouvidos”. Cristo se identifica como sendo ele mesmo o verdadeiro servo de orelhas furadas, e as profecias biblicas frequentemente apresentavam o Messias com esse caráter:
“Eis o meu Servo, a quem sustenho” (Is. 42:1).
“Eis que trarei o meu Servo, o Renovo” (Zc. 3:8).
“Eis que o meu Servo procederá com prudência; será exaltado e elevado” (Is. 52:13).
“Pelo seu conhecimento o meu Servo justo justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si” (Is. 53:11).
Em Filipenses 2 somos exortados: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo a que devia apegar-se; mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.”
Não é chocante? O Senhor do céu e da terra assumindo a posição de sujeição. Aquele diante de quem os serafins não ousam olhar tornando-se menor que os anjos. Um livro inteiro do Novo Testamento é dedicado exclusivamente a apresentar o serviço do Servo perfeito: o Evangelho de Marcos mostra como Ele serviu com excelência, como ele trabalhou exaustivamente, serviu e se entregou como ninguém.
“Eis aqui venho, para fazer, ó Deus, a tua vontade” (Hb. 10:9) foi o que Jesus disse ao assumir a forma de Servo. “Não sabíeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” (Lc. 2:49) são Suas primeiras palavras registradas após vir a este mundo. “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo. 6:38) resume toda a Sua vida perfeita entre os homens. Como Servo perfeito, Ele dependia inteiramente do agrado de Seu Mestre. “Não agradou a si mesmo” (Rm. 15:3). “Estou entre vós como aquele que serve” (Lc. 22:27).
Existe uma enorme dívida entre todos os homem e Deus. Uma dívida impagável. Você pecou e, de muitas maneiras, roubou a Deus. Roubou-Lhe a honra, a obediência e a glória que Lhe eram devidas. Jesus se vendeu como escravo para pagar essa dívida, por isso veio em forma de escravo. Em Êxodo 21:32, Deus estabelece o preço de um escravo como 30 moedas de prata, o mesmo preço que Judas receberia para entregar Jesus (Mateus 26:14–15). Jesus serviu a Deus e aos homens, viveu uma vida perfeita, honrando a Deus exatamente onde Ele havia sido desonrado. Como a profecia previa 700 anos antes o que o Messias faria: O Senhor se agradou dele por amor da sua justiça; Jesus engrandeceu a lei e a fez gloriosa. (Isaías 42:21).
Nos livros dos profetas a expressão “Orelha furada” vai ser usada como uma figura de linguagem para “ouvir a palavra de Deus”, “ter os ouvidos abertos“, se referindo a uma postura de obediência a Palavra (Isaías 50:4), assim como os escravos tem uma postura de obediência absoluta aos seus senhores. Abrir as orelhas era um sinal visível de servidão permanente. Quando o Pai declarou Seu pleno agrado: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.” Ali, quanto à Lei, Jesus poderia ter ido diretamente à glória. Mas Jesus preferiu ser furado no madeiro.
“Porém, se o servo expressamente disser: Eu amo meu senhor, minha mulher e meus filhos; não quero sair livre, então seu senhor o levará aos juízes, e o fará chegar à porta ou à ombreira, e lhe furará a orelha com uma sovela; e ele o servirá para sempre.” (Êxodo 21:5–6).
Jesus amou tanto o Pai, a igreja e os filhos que Deus lhe deu, que o amor levou Cristo a abrir mão de Sua liberdade legítima. Amor tríplice. Ele escolheu voluntariamente o caminho da cruz. O furo na orelha é um símbolo de sua dedicação total e permanente. Cristo entregou-Se completamente à vontade do Pai e ao serviço daqueles que ama. E esse serviço não terminou na cruz. Em João 13 vemos uma bela figura disso: o Senhor, cingido com uma toalha, lavando os pés dos discípulos, como os escravos faziam. E a Escritura nos diz que Ele servirá “para sempre.” Em Lucas 12:37 lemos que, quando vier o Reino, Ele mesmo se cingirá e fará com que os Seus se assentem à mesa, e os servirá. Mesmo glorificado, o Filho de Deus continuará a ministrar por amor eterno.
Repare que o local de furar as orelhas do escravo é no mesmo lugar que os israelitas colocavam o sangue do cordeiro na Páscoa (Ex 12:7), na mesma madeira que simbolizava a cruz do Senhor.
Nós temos muito mais motivos para nos engajar em servir a Deus para sempre. Nós temos todas as razões do mundo para amar ao nosso Mestre e à sua obra, sua humildade, e a ter nossas orelhas furadas junto aos umbrais das suas portas, como quem não deseja ser liberado do seu serviço, mas encontrar-se cada vez mais livre nele, viver mais para ele, adorá-lo mais e viver em intimidade com o Senhor para sempre. Que o Senhor nos ajude a obedecer à palavra.
“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.” (Fp. 2:5)
*Clique aqui para conhecer a revelação de Jesus em outros capítulos da Bíblia

0 comments:
Postar um comentário