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Jesus em Êxodo 12: A Penúltima Ceia
O capítulo começa com Deus estabelecendo o mês da saída do Egito, o mês de Abib, como o primeiro e principal mês do calendário de Israel. É uma mudança importante, porque Abib marca o início da Primavera. A primavera marca o fim do inverno, o fim do período da morte, e neste mês de Abib, a terra começará a ser renovada. Não é atoa que a primavera é um símbolo da chegada do Messias (Cantares 2.11,12).
"Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro, segundo a casa dos pais, um cordeiro para cada família. [...] E o guardareis até o décimo quarto dia deste mês; e todo o ajuntamento da congregação de Israel o matará no crepúsculo da tarde." (v3-6)
O cordeiro deveria ser separado quatro dias antes da Páscoa. Jesus, como o Cordeiro de Deus, entra em Jerusalém exatamente nesse período, se apresentando ao povo para ser examinado antes do sacrifício. Os sacerdotes do Templo o avaliam e não conseguiram acusá-lo mediante a Lei (Mateus 26:59-60), as autoridades do povo também declararam que não foi achada culpa Nele (Lucas 23:13-15).
O cordeiro deveria ser macho, sem defeito, sem impureza, deveria ter um ano (idade com a qual o animal não teria tido ato sexual). Tudo isso aponta para Jesus, que foi puro, não se contaminou com o pecado, homem perfeito e que cumpriu a Lei até nos mínimos detalhes.
Embora na primeira Páscoa milhares de cordeiros foram sacrificados, é muito curioso que o texto trate o cordeiro no singular, quando diz que no dia 14, “todo o ajuntamento da congregação de Israel o imolará no crepúsculo da tarde” (Ex12:6). Mesmo que cada família tivesse o seu cordeiro, a Torá fala como se fosse um só cordeiro por toda a nação, imolado por toda a congregação. Por alguns momentos parece que o texto de Êxodo se encaixa até melhor com a morte de Jesus do que com a morte dos cordeiros e cabritos no Egito.
Imagine a cena: Uma família matando um cordeiro e assando ele para comer. Era uma cena comum, poucos elementos indicavam que era um sacrifício religioso. Havia uma questão espiritual importante acontecendo ali, mas não parecia. Uma das maiores manifestações de Deus estava acontecendo diante dos seus olhos, mas não parecia. O ordinário e o extraodinário, o natural e o solene, se encontraram naquela noite. Quem olhasse a cena, diria que era apenas uma família preparando uma refeição. Mas por trás do que os olhos podem ver, haviam realidades espirituais sendo estabelecidas. Não foi assim na cruz? Parecia apenas mais um crucificado por Roma, mas ali estava o próprio Deus sendo crucificado. Sem perceber o extraordinário, acabaram cumprindo a Lei e os profetas.
Deus havia enviado um decreto de que faria Justiça contra todo pecado do Egito. Mas ao fazer um decreto contra os pecados do Egito, Israel que além de habitar no Egito, também não estava isenta dos mesmos pecados. Conforme vemos no profeta Ezequiel (Ez 20:7-8), Israel também havia se contaminado no Egito. Ou seja, o povo que Deus queria salvar se tornou réu do decreto e da Justiça do próprio Deus. É como se você indignado com a criminalidade clamasse “Deus, faça Justiça na nossa nação”. Imagine se Deus atende essa oração e você mesmo, que orou, não é achado perfeito no Tribunal de Deus. Imagina se Deus desce para executar sua Justiça contra toda a impiedade da nossa nação e ao descer ele observa a sua injustiça com a sua esposa, com seus vizinhos, ou com o seu colega de trabalho. “Quem suportará o dia da sua vinda? Quem poderá permanecer de pé quando ele aparecer?” (Malaquias 3:2)
O profeta Isaías usa o verbo “páscoa” como sinônimo de “proteção”; Deus protegendo seu povo. Ou literalmente “Passando por cima” ou “cobrindo”, assim como um pássaro cobre ou “passa por cima” dos seus filhotes no ninho. Esta praga era um juízo direto de Deus sobre o pecado, e contra a Justiça de Deus não há abrigo seguro senão no próprio Deus. O próprio Deus precisava “cobrir” o seu povo. Portanto é o próprio Deus que precisa dar um meio de Israel ser salvo da punição. E este é o meio: Eles precisavam passar o sangue do cordeiro que foi morto no batente das portas.
O cordeiro deveria ser morto, e assado no fogo (v6-9), o que simbolizava os sofrimentos intensos do Senhor Jesus até a morte. A ira de Deus é como fogo (Dt 4:24, Sl 89:46, Ez 22:31), e Cristo bebeu o cálice amargo da ira de Deus em nosso lugar. “O cordeiro devia ser morto por toda a congregação”, refletindo que todo o povo (e, de modo mais amplo, toda a humanidade) temos responsabilidade na morte de Cristo.
Na primeira Páscoa os judeus revivem o que eles comeram naquela noite. Na última Ceia, a igreja revive o que Cristo e os apóstolos comeram naquela noite.
A lembrança da Páscoa e da Ceia tocam ao mesmo tempo no passado, no presente e no futuro. É como se do ponto de vista litúrgico e cultico você transcendesse em direção à eternidade. Participar da Ceia do Senhor é portanto participar da Páscoa.
O cordeiro pascal não foi sacrificado apenas para ser contemplado, mas para ser consumido. Da mesma maneira, precisamos nos apropriar de Cristo pela fé, assim como fazemos com o alimento que ingerimos. Ele deve ser para nós fonte de força e sustento espiritual, assim como a comida fortalece o corpo. E, mais do que isso, devemos encontrar em Cristo alegria e satisfação, do mesmo modo que sentimos prazer ao comer e beber quando temos fome ou sede. Reafirmamos simbolicamente essa verdade ao participar da Ceia do Senhor, assim como os hebreus reafirmavam a libertação por meio dos símbolos da celebração da Páscoa.
Nenhum incircunciso poderá participar. No verso 48, diz que se um estrangeiro quiser celebrar a Páscoa do Senhor terá que circuncidar-se, e poderá participar como o natural da terra. Há uma só lei aplicada aos judeus e gentios que receberam o sinal do pacto. Na Nova Aliança não é diferente, todo aquele que quiser participar da Mesa do Senhor, deve anter ter passado pela circuncisão do coração (Colossenses 2.11. 2). Antes de tomar um lugar na Ceia do Senhor é necessário que o Espírito Santo tenha operado o novo nascimento, sendo judeu ou gentio a regra é a mesma (v49), o que nos mostra a unidade do corpo de Cristo.
A Páscoa da Antiga Aliança tinha um alcance limitado: recordava a saída do Egito e a conquista de Canaã, uma libertação passageira. Israel voltou a ser escravo novamente. Por outro lado, a morte de Cristo realizou uma libertação muito mais profunda e definitiva: quebrou para sempre o domínio do pecado e abriu para os crentes a esperança de uma pátria muito superior à Canaã terrena. O que permanece agora é a redenção eterna, que será celebrada pelos santos já glorificados na presença de Deus e sem data para acabar.
Deixe-me compartilhar uma ilustração que ouvi do Dr. Don Carson.
Imagine dois judeus, Smith e Brown, conversando na véspera da primeira Páscoa, na terra de Gósen.
Smith diz:
— Eu confesso que estou um pouco nervoso com o que vai acontecer esta noite.
Brown responde:
— Ora, Deus nos disse exatamente o que fazer através de Moisés. Você não precisa ficar ansioso. Você não matou o cordeiro, não passou o sangue nos batentes da porta e não está preparado para comer a refeição pascal com a sua família?
Smith responde:
— Claro que sim! Não sou tolo. Mas ainda assim… é assustador. Pense em tudo o que aconteceu ultimamente: as moscas, o rio transformado em sangue, a escuridão, e agora essa ameaça de morte do primogênito. Você tem três filhos, mas eu só tenho um, e amo meu Charlie. E o Anjo da Morte passará esta noite… Eu sei o que Deus disse, eu coloquei o sangue na porta, mas ainda estou apavorado. Vou ficar aliviado quando essa noite passar.
E Brown retruca:
— Pois que venha esta noite! Eu confio nas promessas de Deus.
Naquela noite, o Anjo da Morte percorreu toda a terra. E a pergunta é: qual dos dois perdeu o filho?
A resposta é óbvia: nenhum deles.
Porque a salvação naquela noite não veio da intensidade da fé de cada um, mas do sangue do cordeiro. O Anjo da Morte não quis saber quantas atitudes boas haviam feito, quão firme era a fé de cada um, ou se sua teologia estava impecável. O que importava era apenas uma coisa: o sangue estava ali?
Eles não foram poupados por méritos pessoais, nem pela grandeza de sua fé, mas pelo sangue do cordeiro. A segurança não estava na fé em si, mas no objeto da fé. Desde sempre a salvação foi por graça e não por obras, nunca foi por mérito. Diante da Justiça do Deus infinitamente Santo eu não tenho outro argumento a não ser o sangue do Cordeiro, me basta que Jesus Cristo morreu, e morreu por mim.
"Eles venceram pelo sangue do Cordeiro" (Apocalipse 12:11). Este é o fundamento de toda segurança humana diante de Deus. Sua fé pode ser pequena como um grão de mostarda, mas se estiver posta no Cordeiro de Deus, você será salvo. O Cordeiro é ofertado hoje, e deve ser recebido hoje, antes que durmamos o sono da morte.
“Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1Co 5:7)
*Clique aqui para conhecer a revelação de Jesus em outros capítulos da Bíblia

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